terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Com as palavras de Eugénio


Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. 
São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elementar. 
Guardo desse tempo o gosto por uma arquitectura extremamente clara e despida, que os meus poemas tanto se têm empenhado em reflectir; o amor pela brancura da cal, a que se mistura invariavelmente, no meu espírito, o canto duro das cigarras; uma preferência pela linguagem falada, quase reduzida às palavras nuas e limpas de um cerimonial arcaico – o da comunicação das necessidades primeiras do corpo e da alma. Dessa infância trouxe também o desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas é sempre uma degradação; a plenitude dos instantes em que o ser mergulha inteiro nas suas águas, talvez porque então o mundo não estava dividido, a luz cindida, o bem e o mal compartimentados; e ainda uma repugnância por todos os dualismos, tão do gosto da cultura ocidental, sobretudo por aqueles que conduzem à mineralização do desejo num coração de homem. 
A pureza, de que tanto se tem falado a propósito da minha poesia, é simplesmente paixão, paixão pelas coisas da terra, na sua forma mais ardente e ainda não consumada.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Companheiro... | Mia Couto


quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

Idades, cidades, divindades: poesia / Mia Couto. - 2ª ed. - Alfragide : Caminho, imp. 2013. - 126 p. ; 21 cm. - Prémio Camões 2013. - ISBN 978-972-21-2640-3
Imagem: Copyright - Ali Car, "Yansiyan"

sábado, 16 de dezembro de 2017

Histórias repetidas...

“Ajudar os outros é mais atraente quando os outros também nos ajudam a nós” (1)

É um caso triste. É uma linha que se consome de um modo de ver o mundo, uma construção que nos dá as imagens que fazem um modo de viver em sociedade. A opinião pública abstracta e indiferenciada gritará todos os dias a formulação insensível deste tipo de gestos. Uma instituição com fins nobres, admirada pela sua vocação social e humanitária desdobra-se no seu modo de ser em gestores refinados com os hábitos modernos do empreendorismo. Por razões quase inexplicáveis (a curiosidade de algum jornalista) as cumplicidades com o poder político emergem e a responsável opinião pública fica chocada entre a hipótese de “crimes de gestão”, ou a simples e subjectiva ética.

É um caso triste pelo que vemos da responsabilidade pública, mas sobretudo é de um clarividente espelho do que na sociedade ainda se olha como referentes de construção social e cultural. Na esclarecida opinião pública e na capacidade transparente de olhar o mundo em que todos os partidos são exímios executantes revela-se o essencial de uma forma de ser que ainda é o nosso. Desta estranheza e ignorância chega-se à formulação de uma estratégia que está em muitas instituições. Ela revela a nossa pobreza enquanto valor cívico e denuncia o que são sociedades pobres sempre a procurar nos esquemas acima da lei, acima da cidadania, esses triviais abusos de autoridade. É o sonho de quem ainda é pobre, mas deseja a iconografia da riqueza.

Este é um caso de uma associação, mas que pode ser ilustrado por tantas outras, empresas, instituições diversas da área da saúde ou da educação. Os excessos da própria classe política, o aproveitamento sem regras de recursos, o enriquecimento a todo o custo são o outro lado desta disfunção. Disfunção social, manipulação pelos que chegam a centros de poder, de decisão e que tudo podem sobre os outros. A falsa ética dos meios de comunicação social é o outro lado desta circunferência, onde todo o ressentimento se denuncia. Como sociedade são esses casos denunciados? Apenas e ligeiramente aos que estão longe do proveito. Vemos tão longe como uma voz pronunciada num buraco negro. 

O caso Raríssimas é triste, apenas e só porque o conhecemos melhor e porque lida com jovens com graves dificuldades de saúde. Há na sociedade inúmeros casos semelhantes, o do aproveitamento pessoal de um bem público, por que se trata de pessoas e das suas necessidades básicas. E é por isso que não chega subir umas décimas no déficit externo para acharmos como Marcelo Rebelo de Sousa, que “somos os nórdicos do século XXI”. 

Entre uma iconografia de redes sociais, de luxo aparente, de carros de gama alta, de janotas bem vestidos, de consumidores iletrados de telemóveis e gadgets, somos ainda a pobreza secular que nos espelha, que nos identifica, como uma incapaz forma de ter coragem, de ter a ousadia de ser. Sem valores espirituais, sem ideias morais dadas e vividas por uma ideia para a vida, dada por uma qualquer crença, sem uma educação que saiba construir uma real cidadania, o que pode ser o País senão esta amálgama de chicos-espertos e desconsoladas formas de pobreza?

Entre análise de José Pacheco Pereira (Público) na leitura dos sinais funcionais e culturais da sociedade e o humor de Ricardo Araújo Pereira (Visão) talvez só nos reste mesmo rir. Rir como os progressistas da Geração 70 à volta de uma sociedade, a de  oitocentos calcificada em valores desiguais. Todos sabemos que as trombetas à volta de Jericó foram muito mais eficazes para os salvar de uma forma de prisão, a de uma insensibilidade humana. As análises talvez já não sirvam numa sociedade que confunde bem público e interesse privado, humanidade e negócios políticos.

A partir das leituras de José Pacheco Pereira, (A sopa envenenada), Jornal Público, 16.12.2017
(1) Ricardo Araújo Pereira, (Aves raríssimas), Visão, Dezembro, 2017.
Imagem - Copyright: Ekkachai Kemkum.

sábado, 12 de agosto de 2017

A melodia das coisas (III)

XI

E a arte mais não fez do que mostrar-nos a confusão na qual nos encontramos a maior parte do tempo. Ela angustiou-nos em vez de nos tornar calmos e silenciosos. Provou que cada um de nós vive nuam ilha; só que as ilhas não são suficientemente distantes para permanecermos solitários e tranquilos. Uma pessoa pode incomodar outra, assustá-la ou persegui-la com lanças - mas ninguém pode ajudar ninguém.

XII
Para passar de uma ilha para a outra só há uma possibilidade: saltos perigosos, nos quais se arrisca mais do que os pés. Daí resulta em terno vaivém de pulos, acompanhado de acasos e de situações ridículas, pois acontece duas pessoas saltarem uma para a outra, ao mesmo tempo, de tal modo que só se encontram no ar e, depois desta troca penosa, continuam tão longe - uma da outra - como antes.

XIII
Isto não é de modo nemhum surpreendente, pois, na realidade, as pontes conduzem a outras, que se transpõem com um belo passo solene, não em nós, mas atrás de nós, exactamente como nas paisagens de Fra Bartolomeo ou Leonardo da Vinci. E é assim que a vida se aguça, convergindo nas diferentes personalidades. Mas, de pico para pico, a vereda segue pelos vales mais amplos.

XIV
Quando duas ou três pessoas se reúnem, não é por isso que ficam juntas. Elas são como títeres cujos fios se encontram em diferentes mãos. Só quando uma mão os maipula a todos, eles ficam submetidos a uma acção comum que os obriga a fazer vénias ou a agredirem-se. E também as forças das pessoas se encontram ali, onde os seus fios terminam numa mão soberana que os segura. 

XV
Elas só se encontram na hora comum, na tempestade comum, naquela sala onde se reúnem. Só começam a entrar em contacto umas com as outras quando atrás delas se ergue um fundo. Têm de poder referir-se a uma pátria una. Têm de mostrar ao mesmo tempo umas às outras as credenciais que têm em sua posse e que encerram todas elas o sentido e o selo do mesmo príncipe. 


Notas sobre a melodia das coisas / Rainer Maria Rilke ; trad. Ana Falcão Bastos. - [Lisboa] : Licorne. 2012. - [22] p. ; 21 cm. - Tít. orig.: Notizen zur Melodie der Dinge. - ISBN 978-972-8661-79-3
Imagem:  Mãe e criançaFra Bartolomeo, Alta Renascença, Itália.

terça-feira, 20 de junho de 2017

O incêndio de Pedrogão - a informação e as imagens

Nas televisões, o incêndio de Pedrógão Grande resultou num avatar técnico-totalitário da “obra de arte total”, na qual se dá uma confrontação dialéctica das várias artes. Com as imagens captadas pelos drones, a SIC compôs um filme com uma banda sonora que não era a Cavalgada das Valquírias, o excerto de uma ópera de Wagner a que Francis Ford Coppola deu uma grandiosa forma cinematográfica em Apocalypse Now, mas tinha a pretensão da “grande arte” wagneriana.

Diz-se que os pilotos operadores dos drones, combatentes de uma guerra à distância, antes de disparar gritam de júbilo: “Oh, que belo alvo!” A nauseabunda estetização da catástrofe servida ao espectador — o “belo” cenário trágico resultante das montagens e encenações feitas nos estúdios das televisões — também mostra que alguém, certamente uma equipa, rejubilou com os seus belos alvos que lhes fornecem matéria para uma grande produção a baixo preço, para um filme-catástrofe que não precisa de efeitos especiais, só precisa de uma montagem bem ornamentada e música a condizer. 
Tudo devidamente sublinhado por textos, legendas e designações (por exemplo, “a estrada da morte”) que remetem para as grandes ficções de Hollywood. Às vezes, sobre essas imagens sobrepõe-se uma voz-off que lê um texto a imitar qualquer coisa de literário, a sublinhar a operação que reduz a tragédia real a uma opereta obscena. A estetização é uma violência exercida sobre as vítimas da catástrofe e, paradoxalmente, tem o efeito de uma anestesia aplicada ao espectador.

Para as televisões, para a maquinaria dos directos e ao vivo, uma catástrofe como esta é um momento do sublime. Se a emergência dessa categoria estética que é o sublime está relacionada com os sentimentos de medo e de terror perante algo que excede toda a medida, é preciso no entanto que a ameaça que eles representam seja suspensa para que da dor nasça o prazer. As reportagens da televisão, muito especialmente as imagens estetizadas que passam a servir de separadores ou de fechos do noticiário, procedem a esta conversão da dor em prazer. São maléficas e eticamente execráveis. Devemos perguntar como é que os jornalistas dos vários canais de televisão se relacionam com elas.

O sublime, como sabemos, tem a dimensão do irrepresentável, deixa a faculdade da imaginação e a fala aniquiladas perante algo que tem uma potência ou um tamanho desmesurados. Por isso, é sempre ocasião para o uso de meios retóricos curtos, mas enfáticos. Para não ficarem em silêncio, para não dizerem pura e simplesmente que não têm nada a dizer ou que tudo o que são capazes de dizer é trivial, os repórteres recorrem aos parcos meios linguísticos que têm à sua disposição. Por exemplo, a palavra “dantesco” (para além de uma certa dimensão, o incêndio é sempre “dantesco” e configura “o inferno”). E porque os processos de descrição, na televisão, consistem sobretudo em mostrar, em dar a ver, entra-se sem pudor na exibição das imagens obscenas. Como vimos, alguns repórteres nem hesitaram em aproximar-se dos cadáveres e oferecê-los aos espectadores como imagens ostensivas. Como uma personagem do filme de Francis Ford Coppola, eles poderiam dizer: “I love the smell of napalm in the morning.”

Face à falta de meios linguísticos (e de tempo para qualquer elaboração mais cuidada) e porque a televisão pratica quase como ideologia jornalística um realismo ingénuo que acaba por nunca produzir o desejado efeito de real, os repórteres ou debitam lugares-comuns que não têm nem valor expressivo nem descritivo, ou recorrem aos testemunhos. Põe-se um microfone e uma câmara diante de pessoas em estado de choque e pede-se-lhes que elas testemunhem, que elas descrevam, que elas superem a afasia em que a situação as colocou. A violência é inominável e a televisão torna-se patética, no duplo sentido da palavra: porque quer mostrar o pathos, dê por onde der; porque exibe a estupidez na mais elevada expressão.

Devemos novamente perguntar: a que coerção estão submetidos os jornalistas para que aceitem o papel de idiotas? Ou fazem-no voluntariamente? Os jornalistas tornam-se então indivíduos ávidos, paranóicos, como os amantes que não se satisfazem com um simples “amo-te”. Desconfiados com a declaração tão lacónica, achando que o amor é uma imensidão que precisa de se dizer com mais palavras, perguntam: “Amas-me como?” E o outro responde: “Amo-te como se fosses o mais doce dos frutos.” E aí começa um encadeamento de metáforas cristalizadas, de estereótipos. Assim são os jornalistas munidos de microfones e de câmaras: não desistem de querer extorquir as palavras e a alma aos seus interlocutores; não deixam de querer arrancar testemunhos a gente moribunda ou a viver a experiência dos limites.

Esta maquinaria é totalitária, expansiva, reduz tudo a uma peça integrada. Este jornalismo é um aparelho ao serviço da lógica da “partilha” da comunicação, da informação e da opinião da nossa época. A utilização dos drones realiza na perfeição esta atitude predadora de quem se acha munido do olho de Deus: o olho que abarca, na vertical, a totalidade do mundo. Era fatal que a televisão viesse a pôr ao seu serviço o drone de omnivisão, dotado de uma vista sinóptica, capaz de uma vigilância de largo alcance, “wide area surveillance”, como se diz na linguagem da guerra.

António Guerreiro, "As vítimas dos incêndios e da televisão", in Jornal Público, 19.06.17

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Não é uma crónica,...

Não perdoo à Igreja nunca ter pedido perdão aos portugueses pela sua colaboração activa com a Ditadura e as iniquidades decorrentes dela, a sua total indulgência, desde a primeira hora, com a injustiça, a crueldade, a desigualdade, a intolerância, os campos de concentração

(Tarrafal, São Nicolau)

a monstruosa polícia política, a violência da censura, o desprezo pelas mulheres, a guerra colonial, a perseguição aos estudantes, aos operários, aos camponeses, a desavergonhada defesa dos ricos, as missas para as criadas, as homilias em que exortavam à obediência aos patrões, a violência para com os sacerdotes e os bispos que ousaram levantar-se contra o Estado Novo, a forma como abençoaram as centenas de milhares de rapazes mandados para África combater as aspirações dos povos colonizados, mandando capelães abençoar aquele horror, apoiar aquele horror, santificar aquele horror

(eu estava lá e vi)

em nome da luta contra o comunismo ateu, em nome da defesa dos valores cristãos, em nome da tolerância, em nome de Cristo. Porque carga de água não tem sequer a simples dignidade de pedir desculpa? Porque carga de água finge esquecer-se? Porque carga de água este silêncio? Eu sou cristão e aprendi a ser fiel até à morte como está escrito no Livro e pergunto: como tem coragem de tocar na Bíblia, como tem coragem de ser hipócrita para com o Senhor? O capelão do meu batalhão em África era um pobre jesuíta que se queixava das instruções que o obrigavam a fazer a apologia do colonialismo em nome do Deus e não tenho a menor dúvida que Jesus o cuspiu da Sua boca. Porque não pede perdão por ter afastado tanta gente da Virtude com as suas atitudes, as suas homilias, até com a utilização ignóbil das pobres crianças de Fátima a quem Nossa Senhora pediu em português

(que outra língua saberiam elas?)

para rezarem pela conversão da Rússia comunista, elas que nem sabiam o que comunismo queria dizer, manobradas sem vergonha pela hierarquia eclesiástica. O que terá sofrido o nosso capelão

(Tenho de fazer isto, tenho de fazer isto, dizia ele)

obrigado a louvar a guerra santa, obrigado a prometer o Paraíso aos nossos mortos, criaturas inocentes condenadas a dois anos e tal de um sofrimento injusto. E a Igreja, passados mais de quarenta, permanece em silêncio, completamente alheada da sua culpa. Isto entende-se? Isto aceita-se? Isto apaga-se? Claro que os filhos das classes altas não iam para a guerra. Conheço filhos dessas classes altas poupados a África com desculpas inacreditáveis. Conheço os seus nomes e conheço as desculpas, desde “incompatibilidade psicológica com o Exército” (posso citar nomes) até “incontinência urinária” (posso citar nomes), até “pé chato” (posso citar nomes), até classificações aldrabadas durante a especialidade (posso citar nomes), e é impossível que a Igreja não soubesse disto. Soube, claro, colaborou. 

E até hoje nenhuma voz oficial dela se ergueu, nenhuma voz oficial dela protestou, nenhuma voz oficial dela pediu perdão a Portugal, nenhuma voz oficial dela pediu perdão aos portugueses, nunca os sucessivos cardeais roçaram sequer este assunto quanto mais falar nele. Pelo contrário: abençoaram o Estado Novo que perseguiu os sacerdotes que ousaram, ainda que só timidamente, levantar a voz contra isto tudo. Perseguiram-nos, expulsaram-nos fizeram-lhes a vida negra. Nem disso a Igreja a que pertenço tem vergonha? Um bocadinho de vergonha ao menos? Limitou-se a arranjar bispos castrenses que aceitaram, apadrinharam, foram cúmplices desta situação. Não temos uma Igreja de Cristo, temos, sob muitos aspectos, uma Igreja hipócrita e complacente. Cristo não foi nunca hipócrita nem complacente: Porque é que a Igreja portuguesa o é? 

Tenho o maior orgulho no meu País, não tenho o menor orgulho nesta Igreja. Se Cristo aqui estivesse vomitá-la-ia da sua boca por não ser fria nem quente. Meu Deus será que nem arrependimento existe? Será que pensa que a memória dos homens é curta? Será que pensa que os portugueses esquecem? Será que não se importa de ser vendilhão do Templo? Será que acredita que vai ficar impune aos olhos do Senhor? Será que imagina que o Senhor não sabe? Será que toma Deus por parvo? Será que cuida que São Paulo, por exemplo, não a varreria? Onde estão as palavras do Senhor? Os Seus ensinamentos? O Seu exemplo? Ainda que em linguagem aparentemente críptica Cristo foi sempre muito claro. E quem quiser ouvir que oiça. A ditadura acabou em 1974, há quarenta e três anos portanto. E nem uma voz até hoje? Nem um simples pedido de perdão, nem uma confissão fácil

– Errei

não existe nenhuma humildade honesta neste silêncio, não existe o simples assumir de uma culpa, de um erro formidável, de um silêncio indecente. Dói-me na alma que a minha Igreja, o meu Deus sejam amesquinhados e esquecidos pelos que se dizem Seus filhos. Tenho vergonha. Tenho nojo. Tenho pena de vós que pagareis por isto. Será que um simples pedido de desculpa não alivia a alma? Parece que não. Por isso, quando morrer, não quero a vossa hipocrisia em torno do meu caixão. Basta-me que a sombra de Cristo ou de um dos seus Anjos se apiede, mesmo de longe, ainda que de muito longe, da minha alma pecadora. Não quero nenhum fariseu junto ao nosso diálogo. Quereria um Homem Justo. Um Homem Justo bastava-me. Onde, na hierarquia da Igreja, da minha pobre Igreja, ele estará?

António Lobo Antunes, “isto não é uma crónica, é um vómito de indignação”. Visão. 8.06.2017.
Imagem - Copyright - Susana Monteiro