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terça-feira, 3 de abril de 2018

Tecer as palavras do real


"O Vento"

O vento sopra contra
As janelas fechadas

Na planície imensa
Na planície absorta
Na planície que está morta,

E os cabelos do ar ondulam loucos
Tão compridos que dão a volta ao mundo.

Sento-me ao lado das coisas
E bordo toda a noite a minha vida

Aqueles dias tecidos
Que tinham um ar de fantasia
Quando vieram brincar dentro de mim.

E o vento contra as janelas
Faz-me pensar que eu talvez seja um pássaro.


Obra Poética I / Sophia. Lisboa: Caminho, 1999.

terça-feira, 8 de julho de 2014

O enigma de Sophia

"Musa guardadora de segredos
Vieste à terra
Para nos revelares
Os contornos da Beleza
E a clara medida do Universo.

Os teus passos de bailarina
Ecoam no templo de Delfos
E nas constelações da noite
Onde lentamente te deslocas
No antigo silêncio dos astros

Enviada da Luz
Para nos encheres os dias
Com o teu canto de cítara
E o desmedido mar
Onde espraias
Os teus poemas de espuma
E de Infinito."

Helena Malheiro, Para Sophia", o Enigma de Sophia (de uma tese de doutoramento)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O real e as suas imagens

«As imagens eram próximas
Como coladas sobre os olhos
O que nos dava um rosto justo e liso
Os gestos circulavam sem choque nem ruído
As estrelas eram maduras como frutos
E os homens eram bons sem dar por isso(...)» (1)

A Grécia e a sua cultura lançou-nos uma imensa luz sobre o conhecimento humano em explosão de formas, cores e possibilidades. A Grécia influenciou muito as palavras de Sophia. Os seus cadernos revelam-nos a simplicidade pelos braços, onde os deuses deram corpo a sonhos e viagens com que nos maravilhamos num real entre o caos e a claridade.

(1) Espólio de Sophia, da Exposição da BN

Sophia - "O nome das coisas"


"O nome das coisas" - Um vídeo sobre alguns dos aspectos que moldaram a sua vida e as palavras que construiu na descoberta do real, dos momentos únicos da sua revelação.

A poesia entre a claridade e o valor ético

Caminho da manhã

"Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. 

Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. 

Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. 

À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. 

Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada. 

Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível".

Sophia, "Caminho da Manhã", in Livro Sexto, 1962

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Em todos os jardins

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia.
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.
 
Um dia serei eu o mar e a sereia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como um beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia, De Mar (Antologia), Caminho 

 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Da poesia

"Pois a poesia é aminha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela. ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume de tília e do orégão."


 Sophia, "Arte Poética II", in Obra Poética III, pág. 95

domingo, 8 de junho de 2014

As palavras no real


Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia. 

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento. 

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.

Sophia, "Iremos juntos sozinhos pela areia", in No Tempo Dividido

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Cíclades ou as palavras para Pessoa

"(...) Onde ainda no mármore das mesas 
Buscamos o rastro frio das tuas mãos
- O imperceptível dedilhar das tuas mãos (...)

Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas
Das múltiplas navegações da tua ausência (...)
E tinhas muitos rostos
Para que não sendo ninguém dissesses tudo
Viajavas no avesso no inverso no adverso (...)

E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste
Estes são os arquipélagos que derivam ao longo do teu rosto
Estes são os rápidos golfinhos da tua alegria (...)

aqui brilha o azul respiração das coisas
Nas praias onde há um espelho voltado para o mar (...)

Como se o teu navio te esperasse em Thasos
Como se Penélope
Nos seus quartos altos
Entre seus cabelos te fiasse"
 
Sophia, in O Nome das Coisas

(Imagem,  via http://bearmountains.tumblr.com/)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Entre os outros...

Porque será que não há ninguém no mundo
Só encontrei distância e mar
Sempre sem corpo os nomes ao soar

E todos a contarem o futuro
Como se fosse o único presente
Olhos criavam outras as imagens

Quebrando em dois o amor insuficiente
Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança".

Sophia, "VI", in No Tempo Dividido. 
Imagem, Qin Yongjun, Dali, Yunnan Province (China)

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Sophia - A poesia em si

"Olho para a ânfora igual a todas as outras ânforas, a ânfora inumeravelmente repetida mas que nenhuma repetição pode aviltar porque nela existe um princípio incorruptível. Porém, lá fora, na rua, sob o peso do mesmo sol, outras coisas me são oferecidas. Coisas diferentes. 

Não têm nada de comum nem comigo nem com o sol. Vêm de um mundo onde a aliança foi quebrada. Mundo que não está religado nem ao sol nem à lua, nem a Ísis, nem a Deméter, nem aos astros, nem ao eterno. Mundo que pode ser um habitat mas não é um reino.O reino agora é só aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece. 

Este é o reino que buscamos nas praias de mar verde, no azul suspenso da noite, na pureza a cal, na pequena pedra polida, no perfume do orégão. Semelhante o corpo de Orpheu dilacerado pelas fúrias este reino está dividido. Nós procuramos reuni-lo, procuramos a sua unidade, vamos de coisa em coisa. É por isso que eu levo a ânfora de barro pálido e ela é para mim preciosa. Ponho-a sobre o muro em frente do mar. Ela é ali a nova imagem da minha aliança com as coisas. Aliança ameaçada. Reino que com paixão encontro, reúno, edifico. Reino vulnerável. Companheiro mortal da eternidade." (1)

(A poesia que é sinónimo da sua palavra, Sophia e do seu perfume. O que nos dá o encanto impressivo da claridade que tanto procuramos na compreensão do possível onde se fragmentam os nossos passos de sol nas ondas de azul. Nos lugares onde ambicionamos a substância de um encontro real, a voz dos nossos precários desejos. Sophia é, nunca é demais relambrar a sua mensagem única, vivida na Poesia, pelas possibilidades que nos deu de saber olhar e com ele construir a própria linguagem, o seu reino.)

(1) Sophia, in "Arte Poética 1"

terça-feira, 20 de maio de 2014

Em todos os jardins ...

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde omar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abaraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu viz prometida nas imagens.

Sophia, "Em todos os jardins", in Poesia.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A Primavera

As Flores

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma mnhã futura.

Sophia, "As Flores", in No Tempo Dividido, página 53

(É um pouco isso o que sonhamos, em cada equinócio de Primavera, em cada novo amanhecer que o real nos concede de forma única).

Imagem (olharfeleliz.typepad.com)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Palavras tecidas

"A memória longínqua de uma pátria
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos." ("VIII", in Poemas de um livro destruído)

A sua luz é clara e transparente como as manhãs nascidas de um tempo novo, não o da dimensão política, não o da pequena ambição pelo cargo, pela nomeação, pelo lucro rápido e incolor. Apenas e só a que procura dialogar consigo próprio, a da manhã branca, onde a claridade emerge de um dia alvo, desenhado e vivido das possibilidades que o real concede. As suas palavras deram-nos uma estética do maravilhoso, num compromisso autêntico, livre e sublime, com a respiração que nos faz ser herdeiros da maior inteireza.

Lutou por ele, aspirou por ele, sonhou realmente com o dia novo, com essa construção substantiva no tempo, das ideias nobres, simples, da reconquista apenas por si, pelo movimento, pela graça, retirando as máscaras e desbravando no caos a pureza inicial do homem. Sonhou com esse momento de levitação, o sonho que a revolução permite, não a da cópia de ideias passadas, já escritas, mas a de que se constrói no coração.

Conduziu-nos pela maresia, falou-nos dessa primeira liberdade, correu com o vento para que também nós sentíssemos a questão inicial, o sopro da palavra comprometida. Mas nós não a compreendemos. Nos quarenta anos do 25 de Abril é uma figura acima de qualquer pretenso olimpo, muito maior que o regime, muito maior do que nós alguma vez seremos. Lamentavelmente os representantes oficiais não poderiam estar mais longe do seu valor ético, daquilo que a sua palavra representa. 

Resta-nos o mais importante. O coração e as suas palavras que são sempre novas todos os dias. E com elas que poderemos abordar os dias, reconquistando o real ao caos criado por incompetentes de serviço, que ocupam os ilegais refúgios de um poder comprometido apenas com o lucro e o interesse mais mesquinho.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

"Libertas, Felicitas, Humanitas"


"Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias."


Sophia, Apesar das ruínas e da morte, "I", in Poesia

A sua vida preencheu o que o Imperador Adriano disse nos longínquos anos do século I, "as intermitentes formas de eternidade" que buscamos entre homens que compreendem com formas novas as pedras caídas das estátuas e das cidades que adormeceram. Os homens que percebem o valor e o significado dessa imensa forma de beleza e de dádiva que é "Libertas, Felicitas, Humanitas". 

Sendo a sua vida um exemplo maior, muitos escreverão a evidência da sua entrega, a luta por um ideal, a infinita capacidade de se conduzir nesta respiração que ambiciona outorgar em cada um o seu infinito valor humano. É verdade que há muito se temia, a sua perda material, mas ele é já há algum tempo um património de memória, de inspiração e de dignificação do que cada homem pode ser.

Num tempo de ruído, saberemos todos compreender o valor do seu amor pela Humanidade, o significado que cada um pode ter nos outros? Mandiba confirma-nos que todo o impossível se pode alimentar da esforço e de luta e que mesmo os que marcham com o poder, os que recusam o papel da memória e da identidade cultural, também podem e devem ser combatidos em nome de uma decência e dignidade humanas. 

A ideia maior que Yourcenar consagrou na voz de Adriano, "Toda a miséria, toda a brutalidade deviam ser interditas como insultos ao belo corpo da humanidade. Toda a iniquidade era uma nota falsa a evitar na harmonia das esferas. (...) Toda a felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a. A menor deselegância desfeia-a, a menor estupidez embrutece-a". Acreditemos, pois que os impossíveis são-no apenas enquanto não lhe dedicámos a nossa entrega em comunhão com os outros.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Livros e leituras - Histórias da Terra e do Mar

"(...) quem do quarto central avança para a varanda e vê, de frente, a praia, o céu, a areia, a luz e o ar reconhece que nada ali é acaso mas sim fundamento, que este é um lugar de exaltação e espanto, onde o real emerge e mostra seu rosto e sua evidência.

Pelo gesto de dobrar o pescoço e de sacudir as crinas, as quatro fileiras de ondas, correndo para a praia, lembram fileiras brancas de cavalos, que, no contínuo avançar, contam e medem o seu arfar interior de tempestade. O tombar da rebentação povoa o espaço de exultação e clamor. No subir e descer da vaga, o universo ordena seu tumulto e seu sorriso e, ao longo das areias luzidias, maresias e brumas sobem, como um incenso de celebração.

E tudo parece intacto e total, como se ali fosse o lugar que preserva em si a força nua do primeiro dia criado."

Sophia, "A cada do Mar", pág. 13
(Ler as suas palavras continuamente , na praia de Sophia, de frente com o mar azul é sempre uma experiência nova, para renascer em novas possibilidades).

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A casa desmedida VI

"Esta casa desmesurada, cheia de gente mas também cheia de lugares vazios e quartos desabitados e fechados, cheia de vozes, silêncios, ressonâncias, mistérios, medos e encantações e assombros, aparece, assim como o jardim, o parque, o pinhal e a quinta, em muitos dos poemas e contos que ao longo dos anos escrevi. É a casa de Hans do conto "Saga", o jardim do Rapaz de Bronze. E, múltipla, a casa é também "um dos palácios do Minotauro" de que falo num dos meus poemas. É igualmente esta a casa que o meu primo Ruben A. descreve no seu livro O Mundo à MInha Procura: uma óptima descrição, tão exacta e veemente que poderá parecer inventada. Mas nunca é nada inventado".

Jardim da casa onde Sophia nasceu, na rua António Cardoso, no Porto
 (Originais integrados na exposição da BN e disponíveis a todos a partir de 2016)

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A Casa Desmedida V

"Com o passar dos anos, os nossos serões iam mudando. Na adolescência, passei horas intermináveis na galeria do andar de cima a revistar os armários de livros.Lia de tudo mas sobretudo uns romances ultra-romanescos que tinham pertencido à juventude das minhas tias. Eram em francês, traduzidos do alemão, e passavam-se em castelos da Turíngia ou da Baviera e as heroínas tinham sempre uns cabelos, ora loiros, ora pretos, com maravilhosos penteados entrançados e com pérolas e diamantes, vestidos flutuantes paixões cheias de enredos, segredos e desentendimentos e deslizavam em longínquos espelhos cercados por enormes e profundas florestas sussurrantes.

Do alto da galeria olhávamos cá para baixo, para o grande quadrado do átrio quase sempre vazio todas as mesas e cadeiras e respetivas pessoas estavam distribuídas pelas galerias que o cercavam, cobertas pelo soalho das galerias do primeiro andar - onde eu procurava livros e me debruçava para ver o que se passava em baixo. No quadrado liso do átrio só se viam as longas tábuas e4nceradas do chão, as quatro colunas de mármore que suportavem nos cantos o peso das galerias, e, à frente de cada uma, os grandes pajens de bronze cujo braço direito erguia uma mtocha com campânulas de vidro baço em forma de chamas.

E além do despovoado o átrio não tinha propriamente teto, o seu espaço subia até ao cimo da casa apenas coberto pela enorme clarabóia de vidro do telhado que, durante o dia, derramava cá para baixo uma luz longínqua, espaçosa e pairante. Este quadrado desabitado no meio da casa tinha algo de teatro, de trágico, e terrível. Só às vezes as crianças o atravessavam - mas a correr. No entanto não havia nenhuma proibição explícita, nenhum medo consciente. Só uma espécie de acordo consciente.

Na minha adolescência algumas vezes - raríssimas - a meio da tarde - quando os membros da família saíam ou estavam retirados do seu quarto e o pessoal se entretinha na larga varanda das traseiras ou para os aldos da copa e da cozinha e quando a luz coada e cismadora da clarabóia convidava a todas as divagações - ousei atravessar o vazio e dançar sozinha no meio do átrio.

[Com a recuperação da casa Andersen, integrada no jardim Botânico do Porto, algumas transformações foram realizadas. A decoração na imagem relaciona-se com a exposição em 2010 sobre Darwin]


(Originais integrados na exposição da Biblioteca Nacional e disponíveis a todos a partir de 2016) 

sábado, 8 de junho de 2013

A Casa Desmedida IV

Ao domingo era obrigatório jantar com a família, um jantar compridíssimo,numa mesa compridíssima. Na cabeceira, estava sentada a minha Avó, já doentíssima e que não comia nada. Nós as crianças ficávamos no outro topo da mesa e aproveitando a distracção dos adultos só comíamos o que nos apetecia. No meio da mesa a todo o comprimento havia maravilhosas compoteiras cheias de frutos secos, frutas cristalizadas e doce de ovos.

Nós começávamos o jantar por aí. Eu comia sobretudo alperces cristalizados e avelãs. Outros especializavam-se em queijinhos de ovos ou nozes ou passas. Deixávamos a sopa em meio e pouco nos interessávamos pelo primeiro prato e pela carne. Mas à sobremesa fazíamos fabulosos festins de pudim de maçãs ou castanhas com natas ou tarte de morangos ou framboesas, ou bolo de chocolate, conforme as estações. Às vezes quando nos servíamos demais o criado dava-nos uma cotovelada.

Também ríamos imenso no topo da mesa - e também nos maçávamos um tanto, fartos de estar sentados e fartos de fartura. Quando finalmente nos levantávamos e os adultos se sentavam nos cantos do átrio fugíamos para os quatro cantos da casa: ou para a sala de jogos bonde fazíamos castelos de cartas, construções feéricas com as pedras de Majong, ou para o bilhar onde os mais velhos tentavam jogar com os tacos e os mais novos jogavam à mão, fazendo rolar as bolas de marfim brancas e vermelhas até aos buracos do canto, em diagonal pela mesa fora, ou jogávamos às escondidas em salas desertas. 

(Originais integrados na exposição da Biblioteca Nacional e disponíveis a todos a partir de 2016)

sábado, 25 de maio de 2013

A casa desmedida III

A casa que, como a quinta, aparece em versos e contos que escrevi, era desmedida. Um casarão do século XIX com grandes janelas, grandes portas, tectos altíssimos e ao centro um enorme átrio, para onde  davam todas as salas do andar de baixo e a galeria do andar de cima. No alto uma imensa clarabóia iluminava a sucessão dos espaços. 

Por mais atentos que fossem os adultos era maravilhosa a liberdade das  crianças nessas casas grandes. Era possível passear uma hora no telhado, ou vaguear na cave, ou comer fora de horas, ou tocar piano na sala de baile sem que ninguém desse por isso.E também ninguém atendia o telefone, fixado numa parede da copa e que durante horas tocava sozinho. O tempo (naquela época) parecia espaçoso como mas casas - quem falava do lado de lá não tinha pressa.

Não era como agora quando numa casa muitas e muitas vezes mais pequena corro desabalada para o telefone e mal o toco logo ele se cala. Um dia, a correr para o telefone, parti um pulso - e mesmo assim amigos meus me dizem que tentaram falar para minha casa mas ninguém atendia. O homem actual perdeu o Tempo.Na minha infância e na minha adolescência os dias eram compridos e, apesar do colégio e dos estudos, cheios de horas livres, de demoras em que se podia cismar. Como disse Goethe, "o ócio é o trabalho do poeta".

(Originais integrados na exposição da Biblioteca Nacional e disponíveis a todos a partir de 2016)