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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A Viagem

"A viagem não se limita a expandir a mente. Faz a mente. As nossas primeiras explorações são a matéria-prima da inteligência (...)" (1)

É um livro, uma ideia, um olhar sobre a natureza, sobre os outros, mas especialmente sobre nós próprios. O real é uma dimensão fascinante do que nos é permitido conhecer. No natural podemos reformular os princípios de uma vida material que não sabe respirar as sombras dos bosques, o pó das estradas, ou a liberdade das águias nas arribas montanhosas.

A viagem, como conhecimento fazendo transpirar as palavras nos caminhos da paisagem, entre a solidão dos passos e o horizonte magnífico, por onde já passaram indiferentes, mas vivas, as perfumadas flores de pessegueiro. À viagem devemos os rituais que em Primaveras sucessivas nos dão o canto das cotovias, a renovação do tempo solar e a construção de uma geografia pessoal que se interliga com o cosmos. É na viagem que se descobre o outro, se acrescenta uma forma diferente, completando-se a aquisição corporal da terra e do mar, dos rios e vales.

Num livro que reúne textos dispersos, compreendemos que a civilização e o seu progresso material e tecnológico constrói uma rede de excessos que são contrários à verdadeira natureza do homem. Esta reside no movimento, pois tudo, dos rios, aos oceanos, dos corpos celestes ao planeta faz o seu movimento contínuo.

Com A Anatomia da Errância Chatwin deu-nos todas as razões para fazer da viagem o centro de uma forma de vida que alimenta os caminhos da imaginação. O real, ainda é uma fonte inesgotável de inspiração e de conforto existencial.

(1) Bruce Chatwin, Anatomia da Errância, Lisboa: Quetzal

sábado, 27 de abril de 2013

Viver a Viagem

"Uma paisagem só pode suscitar a emoção do sublime quendo sugere força, uma força maior que a dos humanos e que os ameaça. Os lugares sublimes encarnam um desafio à nossa vontade". (1)

Alain de Botton, dá-nos em A Arte de Viajar um conjunto de referências sobre algo constante na dimensão humana, a busca da felicidade e a apreensão íntima da beleza. Isto é o plano maior dessa construção, de que os Gregos chamavam a Plenitude Humana, ou seja o modo como na viagem tentamos superar a rotina e o quotidiano.

A viagem se é para alguns, um momento regular de libretação e de conhecimento de outras geografias, é para outros a tarefa essencial da vida. Pensar a viagem, entre o desejo, o sonho e as imagens criadas, a curiosidade por buscar noutras culturas o complemento do que somos são alguns dos tópicos abordados pelo autor.

 A viagem e os seus locais por onde alguns se aventuraram em formas de construir uma intimidade solitária e que buscava o outro, a natureza, o sublime que nos transporta a momentos de trancendência e à verificação da nossa frágil efemeridade. A viagem, como descoberta do que mais intímo mora em nós, da capacidade de ver o mundo e de o representar com significado no que será o mais perene da experiência humana conduz-nos à Arte.

A viagem dá-nos assim pela sua iniciação nas palavras, os significados que todos os passos souberam registar no olhar atento do real. Um livro sobre paisagens, escritores, poetas, visionários, viajantes que fizeram da viagem uma fonte de energia criativa e um caminho alternativo, na descoberta mais próxima da realidade que nos envolve.


(1) Alain de Botton, A Arte de Viajar, Dom Quixote

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A viagem...

"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as sua próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sobre o próprio teto. Um homem precisa de viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos , e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver".

Amyr Klink, Mar sem fim 

sábado, 16 de março de 2013

Breviário Mediterrânico

"A filologia do mar- rico de inteligência e de poesia, no que mistura de rigor e de temeridade, (...) de precisão científica e de epifania do infinito." (1)

A viagem, a descoberta de novos espaços iniciou a construção do que somos como civilização. A nossa identidade forjou-se nos espaços azuis do céu, nas gotas de sal que emergem das ondas, nos portos e faróis onde nos abrigámos. Nesta iniciação ao mundo onde se erigiram descobertas e saberes, sabores, alimentos e perfumes, a Europa nasceu e por ela expandiu formas culturais ao mundo.

Dos mares, às rotas terrestres, da mareia às fortalezas marítimas, foi a viagem pelo mar que nos fez culturalmente, como civilização. este mar no qual nascemos para o conhecimento do mundo, por onde contactámos a história romana com a explosão grega, o desafio árabe e a afirmação europeia é o Mediterrâneo.

Predrag Matvejevitch descreveu em Breviário Mediterrânico, a luz solar, o perfume das laranjeiras, o vento silvestre no olival, onde as azeitonas e o sal fermentam os dias. Com ele aprendemos, o que sentimos nas cidades onde o mar fez soprar o seu encanto por onde perdemos a voz com as sereias. Se a viagem nos fez descobrir o que somos,o mar, com os seus rios interiores e exteriores deu-nos a alegria de redescobrir outras paisagens, outras formas de ser.

O Mediterrâneo é esse caminho estrelar por onde o sol e a luz abrem formas particulares de organização social e económica. O Mediterrâneo, tal como a viagem, a navegação constrói-se na lenda, na geografia, no perfume alto dos pinheiros, nas encostas de figueiras onde já prenunciam as areias do deserto e nas cidades que reflectem as suas aventuras. Todas as palavras são instrumento e memória da linguagem precisa e enérgica que é o milagre do mar. Dando consistência ao particular, juntando no quotidiano as formas imaginativas da civilização.

(1) Predrag MatvejevitchBreviário Mediterrânico, Quetzal

O Mediterrâneo



"Era ao longo da costa que passavam as rotas de seda e do Âmbar, que se entrecruzavam os caminhos do sal e das especiarias, do azeite e dos perfumes, as vias dos utensílios e das armas, das artes e do saber, das profecias e da fé. A Europa nasceu no Mediteterrâneo."

in, Pedrag MatvejevitchBreviário Mediterrânico

Início


A viagem é o grande meio, talvez o único capaz de permitir ao homem superar os seus limites, integrar a diversidade, por onde aquilo que é possa ser uma porção de estrelas que o constitui. A viagem é sobretudo uma construção sobre a geografia, esse espaço e tempo que se sobrepõe ao homem e o faz respirar acima da História e da fracção do momento.
A viagem constrói-se em múltiplas geografias, por onde iniciamos formas de conhecer, de ouvir e de aprender a respirar o mundo revelado. Geografias tecidas no sentido de que cada olhar tece um caminho por onde se respira o mar e o sal, a terra e as estrelas, as montanhas e o pó da estrada.
Este é um projecto de escrita, de observação do real, da respiração na viagem, onde conhecemos as ideias de nós próprios, os gostos que nos podem fazer descobrir as cores do planeta.O seu nome inspira-se na ideia de viagem e de descoberta e na poesia de Sophia. Seremos sempre aprendizes dos momentos em que nos educou o olhar na respiração do sol e do mar, do vento e das marés. Os tempos de viagem são sempre instantes tecidos, na forma que faz do olhar uma forma de respirar o mundo.

(Imagem, Mata da Albergaria, Parque Nacional Peneda Gerês)