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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

No céu cinzento...

O céu anuncia-se cinzento,
a noite quase fria,
e entre gente que corre,
para um fim de ano,
olho as luzes do jardim,
candeeiros,
em caminhos de silêncio.
A oliveira decrépita,
alonga-se como um braço,
em flores de verde
para os espaços de céu aberto.
Os gansos alinham-se
sob o lago,
espreitando as sombras
onduladas da água.
As acácias
despidas de folhas,
são desenhos,
de geometria irregular,
linhas que se pronunciam ao cinzento,
formas paradas de tranquilidade,
uma oração de silêncio.
O vento saiu destes rostos
e todo o verde é uma catedral,
a perpétua forma do real,
o tempo de si.
Homens com metáforas
inclinam-se hoje
para a celebração de um novo ano,
a mais efémera forma de felicidade,
 o tempo abstracto das sombras,
o caminho de florestas esquecidas.
E foi,
em veredas de pirilampos,
com montes iluminados
que lembrei os teus olhos
vivos,
da pura luz do mar,
e as tuas mãos
doces, com as minhas,
nesse altar de verde,
Massarelos debruçado
e a cidade,
a maresia do azul.

(imagem - sobre as margens do Douro)

domingo, 31 de maio de 2015

Serralves 2015

Mais uma vez Serralves em Festa foi uma demonstração de arte contemporânea, integrando áreas como as artes performativas e as artes visuais, num parque pleno de biodiversidade. Serralves desenvolveu este ano um programa variado, com o tema "Um entre muitos", na ideia de que cada um de nós pode integrar um colectivo e pode sentir-se como parte dele. Um imaginário de descoberta e pertença, que o Porto faz de uma forma sublime..

sábado, 2 de agosto de 2014

O Porto...

«O Porto é uma cidade muito diferente de Lisboa, é diferente crescer e viver no Porto ou em Lisboa. As pessoas em Lisboa não têm consciência disso, as do Porto admito que tenham outro tipo de consciência. Poderia ter sido uma cidade do Thomas Mann, muito parecida com as cidades hanseáticas, como Lübeck, onde ele viveu. É uma cidade burguesa no verdadeiro sentido do termo. Tem valores muito parecidos com as cidades do Norte, onde os comerciantes eram liberais e se interessavam pela cultura. 

Sempre foi um mundo que valorizou o trabalho de uma forma diferente do que acontecia em Lisboa. Era a cidade das grandes fábricas. As grandes fábricas têxteis estavam no Norte, deram o nome a clubes de futebol – Paranhos, Boavista. Falo de fábricas com milhares de trabalhadores, típicas do período de crescimento da Revolução Industrial. O Porto é uma cidade do trabalho, quer nas antigas corporações quer nas antigas tradições, ainda muito marcadas pelos nomes nas ruas. Muitas igrejas, muitas instituições têm a marca do trabalho corporativo, mas a cidade também teve esse papel. O Ramalho Ortigão escreveu que no Porto não se conseguia andar meia dúzia de metros sem encontrar uma tabuleta de uma associação mutualista.


 Na própria conjugação do movimento operário, é uma cidade muito mais socialista do que anarquista, enquanto em Lisboa havia uma tradição forte de anarcossindicalismo. Acima de tudo, tem uma burguesia liberal que esteve no cerne de todo o processo do liberalismo novecentista. Não foi por acaso que D. Pedro deixou lá o coração. Quem conheça a História do Porto sabe que é uma cidade que resistiu violentamente ao Estado Novo, como os grandes combates de 1927. Foram no Porto os grandes comícios da oposição: o comício do Norton de Matos [janeiro de 1949] e a receção ao Humberto Delgado [maio de 1958] que é gigantesca, a cidade sai à rua. Não há paralelo, esse comício mudou toda a história da campanha do Delgado, mudou toda a história política a partir de 1958.  

É uma cidade com as suas instituições, os seus clubes, o Ateneu, um certo tipo de tradições culturais de uma elite fabril, industrial e ligada à imprensa – O Primeiro de Janeiro e O Comércio do Porto têm essa origem. Muito da vida da cidade faz-se de cima para baixo e de baixo para cima. Isso leva a que o Porto tenha uma respiração de liberdade que não veio com o telégrafo nem veio de França. Ainda hoje, é a cidade que tem o trabalho e o sacrifício pelo País no nome e no símbolo de tripeiro, e que se reconhece nesses valores. Durante o salazarismo, muitas instituições universitárias do Porto fecharam e as que sobreviveram tiveram uma vida muito difícil. Mas havia escolas com uma grande repercussão nacional – Engenharia, Medicina, Ciências, Arquitetura, Belas-Artes. 

No Porto estão alguns dos primeiros edifícios de arquitetura moderna, muitas vezes feitos por pessoas que ganhavam dinheiro na indústria e que eram mecenas de artistas. Nos anos 1920, construíram-se cópias da arquitetura social de Viena. Junto da casa do Eugénio de Andrade, quando ele morava no 111 da rua Duque de Loulé, havia um grande bairro feito a partir das ideias da arquitetura socialista, uma espécie de falanstério. E havia vários desses. E depois havia as “ilhas”, outra realidade muito associada à industrialização rápida, aí sim, mais pobres. Eram uma solução de emergência, especulativa, em relação à pressão industrial, para albergar um número muito significativo de operários que vinham das zonas rurais do interior. Algumas epidemias de cólera e de tifo tiveram aí o seu desenvolvimento e o salazarismo viu-se na necessidade de criar os bairros sociais que reproduzem o fenómeno das “ilhas” para os dias de hoje. 

O Porto é uma cidade liberal mas não jacobina. Lisboa é mais jacobina do que liberal, na sua história política e social. Eu nunca deixei o Porto. Havia umas personagens do teatro japonês que andavam sem nunca levantar os pés porque se o fizessem era sinal de que perdiam o contacto. E eu também: os meus pés estão lá sempre, sempre em cima daquela terra, é lá que me sinto bem.»

José Pacheco Pereira, "O Porto poderia ser uma cidade de Thomas Mann"
 Revista Ler - Julho/Agosto de 2013
(Imagem - copyright: Ah! Porto 2011)
 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Cubo na Ribeira

Chamam-lhe Porto,
Ou então Invicta.

É uma cidade feita de chuva
(umas vezes mais que outras)
mas onde nos afundamos indefinidamente.

É uma cidade que se adivinha ao entardecer
E aí se demora.

É uma cidade-crepúsculo 

 Joana Padrão, Porto - uma imagem para o Mundo
 Imagem - Copyright (Deolinda Keng)

terça-feira, 27 de maio de 2014

Biodiversidade - Serralves

Na cidade do Porto existe no seu centro, nas imediações da Boavista um Parque onde em diferentes espaços podemos conviver directamente com a Natureza. Criado a partir de um espaço que existia desde 1923, como património de uma família portuense, este parque foi evoluindo em diferentes secções que integraram a quinta do Lordelo, o jardim Mata-sete e o Jardim Jacques Gréber. Abriu ao público em 1987, após uma cuidada recuperação, sendo ainda objecto de uma profunda valorização que seria concluída em 2006. Como elementos integrantes do Parque temos a casa da Fundação desenhada por Marques da Silva, arquitectura desenhada no espírito da Art Déco e o Museu de Arte Contemporânea desenhada pelo arquitecto Siza Vieira.

Um dos locais mais fascinantes no País para desfrutarmos a biodiversidade é sem dúvida Serralves. Fascinante e impressionante pelo modo como ali podemos apreciar e desfrutar as tonalidades dos diferentes dias em diversas estações do ano. Serralves é um excelente exemplo de integração das transformações de um determinado tempo, séculos XIX e XX, assumindo a vertente cultural e natural de um parque rico do ponto de vista da biodiversidade.

Em Serralves podemos observar ao lado de campos agrícolas, o celeiro e o lagar, assim como uma diversidade de plantas. Dos roseirais às aromáticas, das grandes sequóias a espécies como os cedros-do-Atlas, dos carvalhos e castanheiros ás plantas rasteiras, das bétulas aos ulmeiros, das camélias à urze. Observamos assim um rico património autóctone ao lado de uma vegetação exótica de grande beleza.

Para lá desta beleza, Serralves é um espaço de fruição de espaços de arte, de observação e contemplação de inúmeras espécies vegetais, de recriação de um lago romântico, ou de visita a uma casa de chá, entre heras e sons de natureza. Desde o Praterre Central à Álea de Liquidambares, o deslumbramento é permanente. Como projecto de biodiversidade e de cultura, no centro de uma cidade, afastada da capital, é um recurso pedagógico e de felicidade que vale a pena conhecer, em pormenor, e com paixão.
(Imagem, in jardineiro-amador.blogspot.com)
 

Serralves - quinze anos de arte contemporânea

Aqui fica o link para o programa das actividades de uma das maiores formas de ilustrar a expressão que a arte e a cultura contemporâneas podem revelar, por estes dias. Com actividades gratuitas para toda a família, pela nobre e leal invicta, já no próximo fim-de-semana, com mostra de arte, expressão circense e música. Programa completo - aqui.
Para os que ainda não conhecem este espaço de grande valor arquitetónico, paisagístisco e cultural, aqui fica uma ligação rápida a Serralves.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Casa da Música

«Não só o Porto foi feito à medida dos seus habitantes como também estes parecem feitos à estrita medida da cidade. Desrazoável, intransigente e generosa.» (1)

É dos encantos de uma cidade que faz da sua individualidade a forma de se afirmar no País e no mundo. É um local de uma geometria de sons que nos encanta sempre que podemos lá passar. É um cubo que tem apostado na diversidade da oferta musical, mas também na ambição dos que ali têm encantado com o seu métier de artistas.

É verdade que abriu muito tarde. A ausência de um fosso de orquestra impede a existência de peças de ópera e a dança não tem tido grande destaque, mas o que fez pela cidade, pela criação cultural, pela envolvência na cidade merece o devido destaque, neste seu quinto aniversário. É na verdade, um belíssimo espaço de cultura, que abriu a participação de novos espaços de criação musical e foi para a cidade uma oportunidade à sua medida, à sua dimensão, à sua natureza.

Nos nove anos da sua inauguração destque para a 8ª edição do Festival Música & Revolução que percorrem momentos marcantes da História contemporânea tendo a participação dos diversos agrupamentos da Casa da Música. Com a temática Música e Conflito serão evocados ligados ao princípio do século XX, com destaque para a partitura de Monteverdi de 1624, a celebração composta por Biber para o Carnaval de Salzburgo em 1673, a música de Fernando Lopes-Graça escrita para o Futuro Pacífico do Mundo de 1986 ou ainda a Música para os reais fogos-de-artifício de Händel ou o O Cântico Eterno de Janáček, entre outros. Mais informações. Aqui.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Nas margens do coração

Deste lado
Sente-se
a estranheza de ser rio
o crepitar do silêncio
a alma suspensa.

Dizem que é apenas um rio.
Não é.
Nunca foi.

Joana Padrão, "Ribeira sobre o rio", in Porto, uma imagem para o mundo, página 20
Imagem, desendo a lápis (Barão de Forrester)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Na cidade-crepúsculo


(...) É uma cidade feita de chuva (...)
onde nos afundamos indefenidamente
[maravilhosamente]

Joana Padrão, Porto - uma imagem para o Mundo

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

uma torre sobe

Uma torre sobe
por dentro do dia,
uma fonte amanhece
num abraço incompleto.
E um largo rio corre,
não pára de correr,
corre de pálpebras
fechadas e tranquilas,
porque a morte no mar
é o seu recomeço

In João Pedro Mésseder, Porto, Porto
Imagem, de Leandro Vale, in  http://leandro-vale.blogspot.pt/

domingo, 19 de janeiro de 2014

A cidade de Garrett

O Porto é só uma certa maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito  que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar.

 O Porto é só esta atenção empenhada em escutar os passos dos velhos, que a certas atravessam a rua para passarem os dias no café em frente, os olhos vazios, as lárimas todas das crianças de S. Vítor correndo nos sulcos da sua melancolia. 

O Porto é só a pequena praça onde há tantos anos aprendo metodicamente a ser árvore, aproximando-me assim cada vez mais da restolhada matinal dos pardais, esses velhacos que, por muito que se afastem, regressam sempre à minha vida. Desentendido da cidade, olho na palma da mão os resíduos da juventude, e dessa paixão sem regra deixarei que uma pétala pouse aqui, por ser de cal.

Eugénio de Andrade, A Cidade de Garrett

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

No Porto, entre as tuas margens


Nesta cidade, grande demais para cidade e especialmente pequena para nação é um mistério impossível de categorizar, na bela expressão de Carlos Tê. Há nela o reconforto da luz sombria que espelha as sombras dos sentimentos moídos pelos voos esquecidos.
Reencontrei nela a minha pele, a brisa empurrada pela nortada que me fez deslizar pelos caminhos de camélias, onde as flores  amarelecidas me fazem lembrar o que tanto amei e continuamente amo.
A tua pele branca ao raiar da aurora, o teu sorriso leve entre a penumbra azul. Olho para ti e penso se poderás ainda abraçar-me ao fim da tarde, entre os pasos de um sonho? Percorro este tempo e tenho em ti os passos transparentes que me fazem recordar o fio de ouro do Cabedelo e a saudade de aí repousar este olhar no teu sorriso de granito e camélias perfumadas pela maresia da Foz.
Imagem, © Pedro Fonseca, via Página do Facebbok, Porto, A melhor cidade do País

domingo, 7 de abril de 2013

Porto, a cidade onde me sonhei...

Quantos que por aqui nasceram não gostariam de escrever este texto que é um inédito de Sophia? Aqui fica para uma dedicação sentida à cidade das camélias e do granito.

 "Nasci no Porto.
Ali estão as tílias enormes, as manhãs de nevoeiro, as praias saturadas de maresia, os rochedos cobertos de algas e anémonas, as Primaveras botticellianas, os plátanos, a cerejeira, as camélias. Ali o rio, as casas em cascata, os barcos deslizando rente à rua nas tardes cor de frio do Inverno. Ali, o cais da Ribeira, os rostos, as vozes, os gritos, os gestos. Uma beleza funda, grave, rude e rouca. Escadas, arcadas, ruelas abrindo um rosto emergindo do fundo do mar da vida. Porque ali é a cidade onde pela primeira vez encontrei os rostos de silêncio e de paciência cuja interrogação permanece. Porque ali é o lugar onde para mim começam todos os maravilhamentos e angústias.

Cidade onde sonhei as cidades distantes, cidade que habitei e percorri na ilimitada disponibilidade  interior da adolescência. Descia pelo Campo Alegre, passava a Igreja do Lordelo, seguia entre muros de jardins fechados. Através das grades de ferro dos portões viam-se redodendros, buxos, cameleiras. Depois surgia o rio e ao longo do rio caminhava sobre a balaustrada de pedra, até à barra até aos rochedos onde saltam as ondas. (...)

E o Porto onde vivi a adolescência e, em parte a juventude foi também a cidade onde encontrei uma cultura que não vivia ao sabor do tempo e da moda. Ouvíamos Mahler muito antes de Mahler estar na moda. Estávamos longe de grupos literários. Falávamos pouco ou nada de avant-garde. Líamos tanto o Proust. Líamos as Canções de Amigo, Horácio, Goethe, Rilke, Lorca. Os concertos eram longamente escutados, religiosamente recordados.

Sem dúvida a cidade tinha as suas convenções, estreitezas e praxes. Mas em contrapartida o cabonitismo e o arrivismo eram coisas raras. Porque nasci no Porto sei o nome das flores e das árvores e não escapo a um certo bairrismo, mas escapei ao provincianismo da capital".

Sophia, Do espólio a abrir ao público em 2016 (cedido pela família e publicado na Ler)   


Imagem, de José Paulo Andrade, "As duas pontes"
in http://www.pbase.com/jandrade/image/96569584