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domingo, 7 de julho de 2013

Os da minha rua - Ondjaki

 "Como se tempo fosse um lugar"

José Saramago acreditava que a memória poderia reconstruir a infância e os passos mais belos do que vivemos e do que fomos em momentos em que de algum modo formamos o que nos pudermos vir a ser. A infância é um teritório, uma geografia particular, mas sempre um local com características únicas que é a de crescer entre um mundo de adultos que poucas vezes se compreende.

Ondjaki escreveu um livro que nos dá  essa memória dos dias mais belos, quando o tempo não existia e em que os milagres da fantasia enchiam o coração de possibilidades. Neste pequeno livro as palavras conseguem resgatar esses pontos cardeais, cujos aromas perfumam a infância. Nele descobrimos sempre como a fantasia, nas crianças é uma forma de responder ao segredos do crescimento, às desventuras de um real imenso. 

Ondjaki escreveu um livro da memória do crescimento em África, concretamente em Luanda, nos anos oitenta, quando a guerra fria colocava outras geografias nos trópicos. É um livro que pelo olhar de uma criança, nos devolve o que no Ocidente há muito perdemos, as ruas como espaços de socialização. A cidade é aqui ainda a personalização das  ruas como espaço de vida e aventura, e as relações humanas eram construídas mais no abraço, que na despedida. 

Um livro de grande valor humano para a descoberta que "uma casa está em muitos lugares, é uma coisa que se encontra". Livro sobre as geografias do encontro na infância, quando as palavras reiventam as memórias, entre o silêncio dos sorrisos e o brilho da fantasia. Mesmo sabendo que os unicórnios jamais voltam do tempo, ouvir os seus passos esquecidos é sempre um reconforto.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Vincent

"Mais uma vez me deixei arrastar por uma busca das estrelas.." (Vincent)

Martin Gayford deu-nos um livro fascinante sobre o convívio de duas almas imensas que reformularam em caminhos novos a Arte Contemporânea. Em Arles, Gauguin e Van Gogh reconstruiram um sentido novo para o que os impressionistas vinham desenhando sobre o papel das novas vanguardas no último quartel do século XIX. O livro é também e muito isso, o desenho de uma figura muito especial Van Gogh.

O espelho nas formas e nos sonhos dessa procura pelo belo, pela cor redentora, capaz de exprimir a salvação do Homem. Todos nós, que o amamos vemos nos seus quadros, na sua vida, no seu sofrimento, as cores do que procuramos ser num mundo de sombras.

Poucos artistas, poucos homens tiveram o talento e a generosidade de tocar pela arte, pela ideia de um bem partilhado, os ideais eternos da Humanidade. Mais que o criador da Arte Contemporânea, Van Gogh, é um dos marcos da História, como processo de memória, na criação de ideias. As mais generosas. No declínio dos dogmas universais Van Gogh deu-nos com a sua cor explosiva a beleza de uma consciência moral pela arte.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Ilhas de azul


"As aves ligam e tecem fio-a-fio a humidade, a névoa constante, o recolhimento, a solidão e o sonho meio adormecido. São a voz da floresta encantada, da floresta submersa e perdida num recanto da ilha." (1)


Se a viagem é um mistério, a descoberta no movimento do que no real nos surpreende e comove, há exercícios de palavras que ambicionam pincelar os sonhos. Ilhas Desconhecidas é um desses raros momentos em que as palavras parecem compreender a vida que emerge do tempo.

Desse tempo geológico, onde vales e montanhas alimentam as flores, os cheiros, as cores e a atmosfera do azul nascente e da névoa que adormece as árvores. A viagem tem aqui a sua essência mais bela, a sua mais particular acção no encontro vivo com o olhar. A viagem como caminho, descobrimento do que sabemos ser.

Os passos e o olhar para a construção do movimento que se inunda da luz, do azul para reconstruir no quotidiano gestos mais ricos e empenhados. Ilhas Desconhecidas é um encontro maravilhado com o mar, o azul, todas as cores que fazem dos arquipélagos da Madeira e dos Açores uma construção de arco-íris de sonhos. Os que repousam nos homens, mas também no oceano, nas nuvens, entre a neblina e a claridade difusa dos elementos.
                            (1) Raul Brandão, Ilhas Desconhecidas
                                    Imagem, in fugas.publico.pt