segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Leituras - Histórias falsas

Disse-o Santo Agostinho: "O que mais interessa não é o que sofre, mas como o sofre cada um." Dos filósofos, mais do que dos homens comuns, esperamos um sofrimento distinto; sofrer com a calma e intensidade justas e atingir o sublime por essa via, é isto que se exige aos filósofos. Mas de ideias o mundo encheu-se rapidamente; enquanto de santos não. O seu aparecimento é bem mais lento: pedra preciosa.

De Zenão conheciam-se já as ideias: era o Negador das Coisas Evidentes. Dizia e repetia: o espaço não existe, o tempo não existe, o movimento não existe. O mundo inteiro tinha para Zenão o mesmo som: se os nossos ouvidos são incapazes de escutar a unidade não culpemos o Músico, o Grande Músico, não o julguemos inexistente, culpemos, sim, os ouvidos, a degradação terrestre dos órgãos que nos foram oferecidos.

O problema foi então um: negar a realidade é negar também as hierarquias. É negar o escravo e negar o rei. Se com este raciocínio, o primeiro pode entusiasmar-se, o segundo, esse, pode não perdoar. Assim foi: o tirano ouviu e não gostou. Zenão negava o seu poder?

É preciso que admita publicamente o seu erro, ou então que não mais o possa cometer, forma exacta de afirmar: então que morra! Porém como o poeta, Zenão, perante o poder tinha um lema: "Resistir muito, obedecer pouco." Lema tanto audaz quanto perigoso. É que aos tiranos podemos dividi-los em duas espécies: os que admiram mais a audácia do que a temem, e os outros. Em definitivo: o tirano que se cruzou com a vida de Zenão era dos outros. (...)

O que se disse de um povo poderia dizer-se assim de Zenão: o que ele deve ter sofrido para conseguir ser tão sábio. Pelas ideias, durante a vida, tornara-se filósofo. Pela resistência à dor, próximo da morte, tornara-se um quase-deus; um sábio. Antes de terminar uma última nota. Que não se confunda: esta não é a biografia de Zenão, mas sim a biografia do tirano responsável pela sua tortura e, por fim, pela sua morte. O nome? Que importa? Todos os tiranos têm o mesmo nome. (pág. 

Gonçalo M. Tavares, "A  história dos tiranos". Histórias Falsas. Caminho. 2014.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Leituras - Cartas a uma jovem amiga

Somos, a maioria de nós, criaturas inconstantes, de humores opostos. Poucos são os que escapam a isso. Para alguns, a causa é física, para outros, é uma condição mental. Gostamos da instabilidade emocional, pensamos que o movimento dos estados de espírito faz parte da existência; mudamos facilmente de um estado para o outro. Mas há poucos seres que não sejam apanhados nesse movimento, que estejam libertos da luta para "vir a ser"; neles há uma estabilidade interior não gerada pela vontade, uma firmeza que não é cultivada, que não tem a ver com um interesse pessoal nem é produto de nenhuma dessas actividades. Essa liberdade acontece quando a acção da vontade cessa.

O dinheiro destrói as pessoas. Há uma arrogância própria dos ricos. Com poucas excepções, em todos os países os ricos mostram essa peculiar imagem de se sentirem com poder para alterar o que quer que seja, até os deuses, podem até comprar os seus deuses. Riquezas não são apenas as materiais mas também as que vêm da possibilidade de se fazerem coisas. Essa possibilidade dá ao homem um falso sentido de liberdade. Ele sente que está acima dos outros homens, que é diferente. Tudo isso lhe transmite um sentido de superioridade; ele distancia-se e olha de longe o mal-estar dos outros; ele não se apercebe da sua própria ignorância, da escuridão da sua mente.

Dinheiro e possibilidade oferecem um óptimo escape para se fugir dessa escuridão. Afinal, a fuga é uma forma de resistência, que alimenta os seus próprios problemas. A vida é uma coisa estranha. Feliz, o homem que é nada. (págs. 34-35)

(Krishnamurti foi um desses homens raros que os tempos passados deram na Índia a formulação de um misticismo que sempre nos fascina. Companheiro de algumas das iniciativas de Gandhi, formulou para estes tempos de cegueira o essencial, a criação por cada um de nós de uma realidade paralela à que já existe. Num tempo de gestação de pessoas de excelência, de formatação econométrica, em escolas de desigualdade, o velho misticismo indiano ainda nos responde, que o egocentrismo, o consumismo, a procura da glória vã, como um dos pilares da infelicidade humana).

Leituras - História de um caracol que descobriu a importância da lentidão

"O caracol que desejava conhecer os motivos da lentidão também não possuía um nome (tal como os restantes caracóis) e isso causava-lhe uma grande preocupação. Parecia-lhe injusto não ter um nome, e quando algum dos caracóis mais velhos lhe perguntava  porque o queria, igualmente sem erguer a voz, respondia:

- Porque o calicanto se chama assim, calicanto, e por isso quando chove, por exemplo, dizemos que nos vamos refugiar sob as folhas do calicanto. Também o saboroso dente-de-leão se chama assim, dente-de-leão, e, por isso, quando dizemos que vamos comer umas folhas de dente-de-leão, já não comemos urtigas por engano.

Mas os argumentos do caracol que desejava conhecer os motivos da lentidão não despertavam grande interesse nos outros caracóis. Entre eles murmuravam que as coisas estavam bem assim, que bastavam saber o nome do calicanto, do dente-de-leão, do esquilo e da gralha, do prado a que chamamos País do Dente-de-Leão, e que não precisavam de mais nada para serem felizes sendo como eram, caracóis lentos e silenciosos, decididos a conservar a humidade dos seus corpos e a engordar para suportarem o longo inverno".

(As perguntas são sempre a mais original forma de aprender, de descobrir, de viajar pelo que não conhecemos. Em História de um caracol que descobriu a importância da lentidão, Luís Sepúlveda criou uma narrativa simples que procura encontrar respostas para questões simples. Paulo Galindro deu corpo a uma história simpática com um conjunto de ilustrações que dão muita plasticidade a um caracol ávido de respostas, para compreender o mundo em que vive).

sábado, 27 de dezembro de 2014

Leituras - Pequenos poemas em prosa

É um dos autores da modernidade, no seu sentido mais contemporâneo, naquilo que um mundo de contrastes e de racionalidade procurou emergir após as revoluções industriais, com todas as suas alterações na arte e na sociedade. É um dos grandes poetas da literatura francesa e teve no século XIX uma imensa influência. Conhecido sobretudo por uma obra, As flores do mal, publicada em 1857, onde a sua poesia questiona os elementos capazes de subverter uma ordem que se transforme e ilumine melhor o coração do homem.

Pequenos poemas em prosa, obra que não foi terminada, foi escrita nos últimos anos de vida e teve a sua publicação inicial em revistas literárias e periódicos da época. Com Pequenos poemas em prosa o poeta procura abolir as fronteiras muito marcadas entre a poesia e a prosa, apresentando uma sensibilidade profundamente revolucionária para o século XIX e que excede em muito esse século. Baudelaire deixou-nos nesta obra algumas das suas ideias marcantes, a relação entre o mundo visível e o que construímos com os sentidos, o que sabemos definir pela observação de objectos, o que se esconde desse mundo real. As sensações, os cheiros, as visões, o simbolismo oculto que cada um pode descobrir.

Poeta marcado por um desprendimento social, pela procura no natural de formas de amar significativas, onde a desilusão, a solidão, o desencontro das pessoas possa ser ultrapassado. A noite, como refúgio, as nuvens, como perpétuo, movimento, as máquinas, o vapor, o caminho-de-ferro como equipamentos para a viagem essencial, a de procurara sempre outros locais, outras sensações, permitindo conhecer outras realidades. O poeta da procura do espanto, pelo sentido mais decadente. A embriagues como forma de superar o Tempo, numa atitude de com a poesia, com o vinho, com a virtude, com o bem, encontrar as respostas que nos façam trazer em cada célula a portabilidade de algo de essencial.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Leituras - O breve sentimento do eterno

Vou buscar uma das estrelas que caiu
do céu, esta noite. Ficou presa a um
ramo de árvore, mas só ela brilha,
único fruto luminoso do verão passado.
---
Ponho-a num frasco, para não se
oxidar; e vejo-a apagar-se, contra
o vidro, à medida que o dia se
aproxima, e o mundo desperta da noite.
---
Não se pode guardar uma estrela. O
seu lugar é no meio de constelações
e nuvens, onde o sonho a protege.
---
Por isso, tirei a estrela do frasco e
meti-a no poema, onde voltou a brilhar,
no meio de palavras, de versos, de imagens.


Nuno Júdice, "Astronomia", in O Breve Sentimento do Eterno 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Celebrar o nascimento de uma mensagem

«Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito da verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno, quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor» (1)

Comemoramos, dois mil anos depois, o nascimento de um mensageiro, de um profeta que nos quis ensinar, revelar que todos os homens são iguais, que a compaixão é um valor absolutamente humano. Ele próprio, incompreendido no seu tempo, estabeleceu os princípios de um nascimento novo. Nasceu no momento único do solstício de Inverno, deixando-nos palavras e tons de luz, e a promessa do descobrimento de uma manhã nova, a do dia branco de esperança no futuro. Sobre os seus princípios, uma ciência de palavras repetidas fundou uma religião. Todos os anos comemoramos em rituais de cerimónia o dever de num dia sermos especiais e de oferecer presentes.

Presentes pouco pessoais, distantes dos valores que procurariam dignificar. O dia e o ambiente em que devemos ser o que muitas vezes não somos, em que uma fraternidade universal adocicada pelo ambiente de luzes, anjos e música nos mostram como participamos solidariamente na vida uns dos outros. Um dia e tão aparentemente. Dois mil anos depois, na Palestina, morrem pessoas em confronto ainda pela posse de uma promessa e de um território, demasiado longe do que se poderia considerar divino e respeitador dos valores revelados há tantos séculos. Dois mil anos depois, a ganância e o lucro fácil e imediato regem um reino de interesses onde os agiotas e os seus princípios especulativos se sobrepõem ao trabalho e aos direitos púbicos da comunidade. Dois mil anos depois, o homem parece ter aprendido pouco.

 Dois mil anos depois, vivemos num País que se auto-governa sem ideias. Dois milhões de pobres, velhotes esquecidos, a cultura do dinheiro neste tempo tão fraterno, onde não há espaço para a memória. Vivemos na virtualidade de acções e valores. Neste tempo, até o Templo e os que lá negoceiam parecem ameaçar o próprio mensageiro e a sua existência. O privado em detrimento da causa pública, que é a de todos. Neste tempo de solstício, sonhemos ainda que tal como a Primavera fará renascer os campos e searas, também garantirá que novas gerações, mais lúcidas saibam concretizar o melhor da dimensão humana. 

Justamente, «a liberdade e a dignidade do ser», nas palavras iluminadas de Sophia. Concretizar o sentido divino do homem, sem lhe negar a sua humanidade. É esta uma forma possível de comemorar o nascimento de um homem especial que revelou que o Homem pode-se alargar numa comunidade de boa vontade. Se o Homem à semelhança do Universo é criado da mesma matéria, da mesma energia concentrada nos átomos, esse entendimento não deveria conduzir-nos a uma mais coerente relação entre o pensamento e a acção? Desde Cícero, a Marco Aurélio e Adriano, na longínqua civilização romana não eram a Humanidade, a Felicidade e a Liberdade os sonhos nesse futuro que ainda hoje se adivinha tão imperfeito?

(1) Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (Posfácio, pág. 73)

domingo, 23 de novembro de 2014

A aparência dos dias

"(...) estou sempre a refletir, a ponderar, a tentar ver para lá das aparências. Não me deixo levar  epifenómenos". (José Medeiros Ferreira)

O país vive das pequenas figuras, dos políticos criados nos media, nas televisão cor-de-rosa que alimentam o sistema político, fundamentado nos comentadores que embalam a população na amnésia que as "instituições" tão bem propõem nos seus gestos sem símbolos. O ex-primeiro ministro à chegada ao aeroporto foi preso. As televisões estavam lá, as informações circulam já.

O ex-primeiro ministro, a qualquer indígena com um nível mínimo de inteligência ia percebendo, em longos meses os erros sucessivos, a iconografia da imagem, o apelo maquiavélico de nós e os outros, o bem e os interesses, mesmo quando eram defendidos pelos pobres cidadãos, pelas pessoas indefesas na luta pela sua dignidade. O ex-primeiro ministro foi mais uma figura irrelevante, da longa irrelevância que é a história política do século XX.

Quando saiu, alguns ingénuos acreditaram que a falta do rigor simbólico, a utilização do poder como forma de privilégio, a gestão do bem público neste país, verdadeira caricatura de um sítio apenas, era ainda uma possibilidade. Afinal o país tinha viabilidade, pois existiam os critérios e as instituições para o fundar algo de decente.

A procissão que se anunciou na regência política e na grande maioria, quase exclusiva dos media, suportada nas instituições organizou a maior descrença possível,  a má-fé como instrumento político. Restava a Justiça, esse instrumento de salvaguarda da verdade e do desenvolvimento. A Justiça deu mais um triste exemplo. Também ela vive angustiada sem o protagonismo dos media, como se os seus actos não fossem no silêncio da sua soberania que devessem ser anunciados. 

A Justiça deu mais um contributo para que o país seja só um somatório de vazios, de epifenómenos, de espuma que os do costume, na sua eterna sabedoria anunciarão. O País é pois isto, a incapacidade de integrar as opiniões alheias, por isso se perde em epifenómenos. José Medeiros Ferreira que pensava e sabia o que dizia, ele que poderia ter sido um instrumento de sabedoria na gestão política, se os aparelhos políticos não fossem apenas conservação de poder e ambições.O país é um eterno game over de personalidades sem luz. Existir só e apenas.

Imagem - © Victoria Ivanova