segunda-feira, 8 de abril de 2013

Picasso...

O século XX, os seus acontecimentos e formas marcaram com extrema violência a vida de milhões de pessoas. A História do século XX não pode ser compreendida sem a Arte, e as formas que ela assumiu. O século passado inaugurou de forma massiva a comunicação como meio de exprimir uma ideia. A pintura deixou de depender da noção clássica dos renascentistas da noção de perspectiva, assim como deixou de representar uma figura ou um quadro natural.
O quadro tornou-se a própria realidade, o meio de criar uma mensagem.

Neste sentido a arte em geral e a pintura em concreto poderia dar a conhecer uma ideia de realidade, uma proposta de sociedade, indicando uma visão do mundo. A perspectiva aparecia como um ponto de observação, dando-nos uma ideia, um quadro, uma descrição do real. Ora, a História do Século XX, pelas suas contradições e angústias mereciam que a perspectiva fosse fragmantada, dividida em secções, como a própria realidade.

A arte e apintura deveriam não dar representações idílicas da natureza, mas mostrar, revelar a natureza humana nos seus aspectos mais visíveis. O feio, a violência, a realidade sofrida por cidadãos em tão variados locais por onde a Guerra fez as suas vítimas. A vida moderna deveria ser expressa na sua angústia, limitações e estado de caos. A arte deveria apresentar o mundo, já distante nas formas sociais e culturais do século anterior. A este movimento iniciado em 1908 por Georges Braque e Picasso deu-se o nome de cubismo.

Foi com Picasso que a ideia da fragmentação da imagem foi levada mais longe. O nome de cubismo vem-lhe da utilização de pirâmides, cubos, cones que utilizava na diferente perspectiva dos objectos. A utilização de máscaras africanas e a utilização das suas cores vivas fez dele um artista muito importante na Arte Europeia e Mundial. Não é excessivo dizer que Picasso é um dos marcos da Arte Ocidental.

Faz hoje justamente um pouco mais de quarenta anos que desaparecia fisicamente um dos criadores do cubismo e que deu à arte e à pintura uma ideia nova e transformadora da representação da realidade e da vida. O Museu Picasso em Barcelona disponibiliza um conjunto de recursos on-line interessantes. Aqui.

Jacques Brel...



(Não sei bem porquê, mas sempre lhe achei na voz terna e doce, amarga e revoltada uma ternura capaz de fazer nascer dias novos. Abril e o renascimento primaveril, os sonhos e as desilusões, a construção que nos é dada a nós como possibilidade sempre me pareceu nele capaz de nos fazer redimir a nós próprios. Todos nós fomos em alguns momentos Brel, no sentido em que ele nos cantou nos nossos mais precários sonhos, no cansaço dos westerns perdidos. "Dieu sont tous les hommes", é um manifesto antes de todas as "revoluções", as que partem da página em branco para olhar a humanidade de frente. Que saudade deste artista fascinante e deste homem único!
«Com certeza existem as guerras da Irlanda
e também povos sem música...
Com certeza, com toda esta falta de carinho (...)
Com certeza andamos sobre as flores...
Mas ver um amigo chorar! (...)

Com certeza as cidades se esgotaram
para estas crianças de cinquenta anos
Nossa incapacidade de ajudar (...)
Claro que o tempo passa muito depressa
estes subterrâneos cheios de afogados
É a verdade que nos evita...
Porém ver um amigo a chorar! (...)

E todos estes homens são nossos irmãos
Com certeza estamos assombrados
pelo amor que nos dilacera...
Mas ver um amigo chorar!» (1)

Jacques Brel, Voir un ami pleurer

(No Nascimento de Brel, oitenta e quatro anos depois, a voz de uma palavra intensa e inesquecível.)

domingo, 7 de abril de 2013

Billie na voz das estrelas



Há largas décadas, justamente a  sete de Abril de 1915, que se celebra mais um ano sobre o nascimento de uma voz única e indescrítivel em palavras. Uma voz plena de emoção que nos dá uma ideia de voo sobre os sonhos, alicerces numa vida em que tantas vezes não se atinge aquilo que imaginámos.


Billie, com uma voz levemente rouca, de um timbre pleno de sensualidade, capaz de nos fazer dar os quadros etéreos entre a felicidade que se procura e a desilusão que tantas vezes sofremos. Ela própria, vítima em criança da extrema pobreza, do abandono, dos maus tratos, foi sem dúvida com a sua voz de anjo um ícone de todas as incompreensões e lutas que travou num tempo em que ser negro era mais uma dificuldade.


Com Lester Young, criou um conjunto de emoções de uma natureza poética sublime, onde a grande altura nos deu o sorriso triste e doce de uma melancolia generosa. Na sua breve vida, encantou mais do que qualquer outra voz o fascínio do encontro e a amargura da desilusão, sempre emocionada e verdadeira numa alegria de entrega pela arte e pela vida. Abaixo um exemplo da sua arte.


Porto, a cidade onde me sonhei...

Quantos que por aqui nasceram não gostariam de escrever este texto que é um inédito de Sophia? Aqui fica para uma dedicação sentida à cidade das camélias e do granito.

 "Nasci no Porto.
Ali estão as tílias enormes, as manhãs de nevoeiro, as praias saturadas de maresia, os rochedos cobertos de algas e anémonas, as Primaveras botticellianas, os plátanos, a cerejeira, as camélias. Ali o rio, as casas em cascata, os barcos deslizando rente à rua nas tardes cor de frio do Inverno. Ali, o cais da Ribeira, os rostos, as vozes, os gritos, os gestos. Uma beleza funda, grave, rude e rouca. Escadas, arcadas, ruelas abrindo um rosto emergindo do fundo do mar da vida. Porque ali é a cidade onde pela primeira vez encontrei os rostos de silêncio e de paciência cuja interrogação permanece. Porque ali é o lugar onde para mim começam todos os maravilhamentos e angústias.

Cidade onde sonhei as cidades distantes, cidade que habitei e percorri na ilimitada disponibilidade  interior da adolescência. Descia pelo Campo Alegre, passava a Igreja do Lordelo, seguia entre muros de jardins fechados. Através das grades de ferro dos portões viam-se redodendros, buxos, cameleiras. Depois surgia o rio e ao longo do rio caminhava sobre a balaustrada de pedra, até à barra até aos rochedos onde saltam as ondas. (...)

E o Porto onde vivi a adolescência e, em parte a juventude foi também a cidade onde encontrei uma cultura que não vivia ao sabor do tempo e da moda. Ouvíamos Mahler muito antes de Mahler estar na moda. Estávamos longe de grupos literários. Falávamos pouco ou nada de avant-garde. Líamos tanto o Proust. Líamos as Canções de Amigo, Horácio, Goethe, Rilke, Lorca. Os concertos eram longamente escutados, religiosamente recordados.

Sem dúvida a cidade tinha as suas convenções, estreitezas e praxes. Mas em contrapartida o cabonitismo e o arrivismo eram coisas raras. Porque nasci no Porto sei o nome das flores e das árvores e não escapo a um certo bairrismo, mas escapei ao provincianismo da capital".

Sophia, Do espólio a abrir ao público em 2016 (cedido pela família e publicado na Ler)   


Imagem, de José Paulo Andrade, "As duas pontes"
in http://www.pbase.com/jandrade/image/96569584

sábado, 6 de abril de 2013

Na memória dos dias

Passaram quase décadas e estes sons, estas palavras pareciam ecoar como um renascimento de possibilidades. Seria daí a dias uma senha para uma alvorada que parece se ter perdido, entre a passividade das ambições mais conformistas. Remete-nos hoje para uma solidão nova, ainda mais difícil, pois a esperança na causa pública é um devaneio sem heróis, num país esquecido de si.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

No jardim das estátuas

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

Hélia Correia in A Terceira Miséria

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Mário...


 Foi o maior actor da sua geração. As palavras tiveram no seu rosto, expressões, formas, brilhos de encontros, entre a voz e a imaginação do possível, entre o espanto do sonho e o cansaço do incumprido. Com as suas lágrimas, os seus sorrisos, a sua indómita vontade, as palavras tiveram oportunidades novas. E tinha aquele ar encantado de miúdo sempre à descoberta de um sonho.          
 
De Mário Viegas as palavras serão sempre poucas, raras, marginais para descrever a entrega a elas e à poesia. Raras para o assombro da voz, a plasticidade do rosto, a expressão dos olhos, a fúria por aquilo que consome o actor e o que o faz amar, em múltiplas cabeças, o que o torna humano e universal, quando "ornamenta Deus com simplicidades silvestres". (Herberto Helder, "O Actor")

Dele ficará sempre a doçura e a raiva na voz contra o que desejamos e não sabemos ser, contra o conformismo perante o verniz que destoa a claridade do dia e o perfume das maçãs. Fomos com ele um sonho de manhã silvestre, por onde hoje caminhos efémeros se diluem, ainda que tenhamos nos olhos o mês de Maio. Acreditemos que esta é a melhor mentira do dia 1 de Abril e que ele ainda todas as manhãs sonha connosco o nascer de todas as palavras.