domingo, 19 de janeiro de 2014

Paul Cezanne

Still Life With Carafe Sugar Bowl Bottle (Via http://www.paul-cezanne.org/)

O azul - Memória de Eugénio

Azul, o azul rouco
o azul sem cor
luz gémea da sede

Acerca deste rigor tenho uma
palavra a dizer
uma sílaba a salvar desta
aridez

Asa ferida, o olhar arrastado
pela pedra calcinada
húmido ainda de ter pousado à 
sombra

de um nome o teu:
amor do mundo,
amor de nada.


Eugénio de AndradePoesia Completa

sábado, 18 de janeiro de 2014

Montesquieu ou o espírito do Homem

18 de janeiro de 1689 - Nascimento de Montesquieu!
“Para se fazer grandes coisas não se deve estar acima dos homens, mas junto deles.” 

...(em construção)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Do reino do maravilhoso

(...) Vinde, porque é de mosto
O sorriso dos deuses e dos povos
Quando a verdade lhes deslumbra o rosto.

Houve Olimpos onde houve mar e montes.
Onde a flor da amargura deu perfume.
Onde a concha da mão tirou das fontes
Uma frescura que sabia a lume.

Vinde, amados senhores da juventude!
Tendes aqui o louro da virtude,
A Oliveira da paz e o lírio agreste...

E carvalhos, e velhos castanheiros,
A cuja sombra um dormitar celeste
Pode tornar os sonhos verdadeiros.

Miguel Torga, «Libertação»

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Palavras tecidas

"A memória longínqua de uma pátria
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos." ("VIII", in Poemas de um livro destruído)

A sua luz é clara e transparente como as manhãs nascidas de um tempo novo, não o da dimensão política, não o da pequena ambição pelo cargo, pela nomeação, pelo lucro rápido e incolor. Apenas e só a que procura dialogar consigo próprio, a da manhã branca, onde a claridade emerge de um dia alvo, desenhado e vivido das possibilidades que o real concede. As suas palavras deram-nos uma estética do maravilhoso, num compromisso autêntico, livre e sublime, com a respiração que nos faz ser herdeiros da maior inteireza.

Lutou por ele, aspirou por ele, sonhou realmente com o dia novo, com essa construção substantiva no tempo, das ideias nobres, simples, da reconquista apenas por si, pelo movimento, pela graça, retirando as máscaras e desbravando no caos a pureza inicial do homem. Sonhou com esse momento de levitação, o sonho que a revolução permite, não a da cópia de ideias passadas, já escritas, mas a de que se constrói no coração.

Conduziu-nos pela maresia, falou-nos dessa primeira liberdade, correu com o vento para que também nós sentíssemos a questão inicial, o sopro da palavra comprometida. Mas nós não a compreendemos. Nos quarenta anos do 25 de Abril é uma figura acima de qualquer pretenso olimpo, muito maior que o regime, muito maior do que nós alguma vez seremos. Lamentavelmente os representantes oficiais não poderiam estar mais longe do seu valor ético, daquilo que a sua palavra representa. 

Resta-nos o mais importante. O coração e as suas palavras que são sempre novas todos os dias. E com elas que poderemos abordar os dias, reconquistando o real ao caos criado por incompetentes de serviço, que ocupam os ilegais refúgios de um poder comprometido apenas com o lucro e o interesse mais mesquinho.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Eric Rohmer

Eric Rohmer foi um cineasta que procurou analisar os aspectos mais contraditórios da natureza humana. Fez parte do núcleo mais importante do cinema francês que na 2ª metade do século XX formou a chamada Nouvelle Vague e de que faziam parte nomes tão importantes, como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Claude Chabrol, entre outros.
  O cinema de Rohmer procura apresentar uma narrativa, sem efeitos especiais, onde a palavra assume uma especial importância. Palavras onde se expressam as escolhas e as indecisões das personagens eram os seus principais ingredientes. O cinema como espelho da vida, onde as noções morais influenciam as escolhas e o sentido de encontro, da felicidade. Na Nuit Chez Maud, The Green Day ou L'Ami de Mon Amie são alguns dos seus trabalhos.
  Certamente que não foi o cinema mais fantástico nas audiências e na espectacularidade da acção, sobretudo em tempos de grande dislumbre tecnológico, mas teve o mérito de criar admiradores por esta interrogação contínua que é a vida. Constitui-se uma reserva cultural da cinematografia europeia, quando a sétima arte é há muito inundada pelos produtos vindos do outro lado do Atlântico. 
  Compreender o homem numa dimensão acima da biologia, da psicologia, tentando criar um lugar afectivo, capaz de recriar a realidade quotidiana, foi a temática de uma obra cinematográfica que vale a pena conhecer e evocar pela sua memória.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Murakami

 
"Se olharem com atenção para a natureza, por exemplo, na Primavera admiram as ‘sakura’, no verão os pirilampos, e no Outono as folhas amarelas dos bosques. Dia a dia, observam tudo com paixão, a cada momento, como uma rotina, quase como se fosse um axioma. Quando chega o tempo respectivo, os locais mais famosos para se verem as flores de ‘sakura’, ou os pirilampos, ou as folhas outonais, enchem-se de gente. Porquê?

Porque a beleza das ‘sakura’, dos pirilampos, e das folhas do Outono, desaparece ao fim de um tempo. Os japoneses percorrem inúmeros quilómetros para poderem ver o esplendor da efemeridade destes fenómenos. Mas não se limitam apenas a observar essa beleza, pois também se aliviam ao descobrir como se espalham as flores das ‘sakura’, a luz ténue dos pirilampos, ou como se apagam as cores vivas das árvores. Na verdade, encontram a paz quando a beleza já atingiu o clímax, e começa a desaparecer…
 
Não devemos ter medo de sonhar. Não podemos deixar-nos engatar pelas causas dos desastres, que se apresentam com o nome de “eficácia” e “conveniência”. Devemos ser “sonhadores pouco realistas”, avançando em passo firme. Os humanos morrem e desaparecem. Mas a humanidade perdura. É algo que se prolonga indefinidamente. Acima de tudo, temos de crer na força da humanidade".
 
Excerto do discurso de agradecimento domPrémio Internacional da Catalunha de 2011.