sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Libertas, Humanitas, Felicitas

"Não existindo já os deuses e não existindo ainda Cristo, houve, de Cícero a Marco Aurélio, um momento único em que só existiu o homem (1).

O tempo parece já tão afastado, está já muito distante de nós e respiramo-lo em formas longínquas, quase desconhecidas no seu sentido mais quotidiano. Fazemos dessa memória uma reconstrução, construída de imagens, das que fomos dsesenhando, recorrendo às formas materiais que o Alto Império deixou de uma civilização grandiosa e enigmática.

É, na verdade um tempo distante, que ousou pensar o real, com o cuidado da análise filosófica, mas com a ambição de construir um sentido mais prático da sociedade. Herdeiros da cultura grega, menos dados a riscos, por grandes ideais, os Romanos legaram uma civilização material riquíssima e influenciaram áreas essenciais de sociedades futuras. O Direito e a Língua foram as mais visíveis, dessa eternidade de uma Roma dominadora. Muitos consideraram esse regresso a uma arqueologia quase sem tempo, uma perda de oportunidades. No entanto, os dias dizem-nos que o seu património é insubstituível pela ousadia com que criaram o seu património civilizacional.

Uma das figuras mais interessantes do Império, nasceu a 24 de Janeiro do distante ano de 76 e ficou apenas conhecido, como imperador Adriano. Nasceu no território que hoje corresponde à Espanha, era descendente de colonos romanos e era primo do imperador Trajano, que viu nele quase um filho. Desempenhou vários cargos, como governador da Síria, foi tribuno de diversas legiões e comandaria a Minervina, e em 117 sucederia ao seu primo no governo do Império.


A importância de Adriano releva da noção que tinha do Império, um espaço humano que devia preocupar-se mais com o sentido da vida dos homens que o habitavam e não ser só um espaço civilizacional dominador de povos e culturas. Aprendeu com os Gregos, a dimensão do homem e tentou estater as diferenças sociais extremas. Renunciou às contribuições das cidades para o Imperador e procurou dinamizar o cultivo de terras. Ensaiou dar mais dignidade ao papel da mulher no casamento e em certas circunstâncias procurou substituir o escravo pelo colono livre.

Humanitas. Felicitas. Libertas - foi a sua divisa e são símbolos de uma governação que aspirava a estes máximos da consciência humana. Conscientes das fragilidades da natureza, esperava ainda assim uma renovação, em que cada ser humano ousasse nas suas ações dar continuidade aos valores e construções  mais perenes. Acreditava que sobre as ondas do tempo surgiriam homens capazes de reconquistar, na efémera possibilidade dos dias, uma dimensão justa do Homem, " a sua intermitente imortalidade" (2).


(1); (2) - Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano
Imagem, busto de Adriano, Museu arqueológico de Atenas

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Orwell


"Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um acto revolucionário." (1)

Imaginámos no mais puro engano que o crescimento civilizacional apuraria os nossos ideais por uma sociedade digna de se chamar humana, que os valores espirituais acompanhariam o crescimento económico e o desenvolvimento tecnológico. Imaginámos que a ilusão seria a forma acabada de uma certa hipocrisia política de conceber a organização social e cultural das sociedades. Imaginámos que a vitória nessa luta era uma aquisição da Humanidade.

Há figuras, personalidades que pensam os seus dias, dão-nos formas de desenhar a construção do quotidiano e lembram-nos como a nossa fragilidade, o nosso desamparo se apresenta como um molde por onde os mais desajustados à dignidade humana se confinam em páginas de indiferença. Fez ontem, um pouco mais de sessenta nos que deixámos de visitar a presença física de um homem que compreendeu como poucos o que foi o século XX - George Orwell. Foi um dos escritores que mais influenciou o século XX. Deixou uma obra importante que soube diagnosticar a tragédia humana que representou o século XX em tantas geografias. De «A Quinta dos Animais», entre nós, «O Tiunfo dos Porcos», a 1984, a sua obra traçou, como uma alegoria, os mecanismos do desprezo pela humanidade que marcaram significativamente o século passado.

Orwell, demonstrou com clareza, como o controle da informação, o apagamento da memória, a destruição de uma consciência humana, a ausência da individualidade, a anulação da espiritualidade construiram regimes inquietantes, feitos de angústia e sofrimento de dimensões indescritíveis. Revelou nas suas páginas, o que muitos respeitados intelectuais não souberam verificar, quando as marchas de paz no Mundo, eram a expressão armadilhada de uma doutrina de tirania.

O início do século prometia uma difusão de regimes democráticos, perto do que alguns consideraram a progressão da História. Vivemos a confirmação do regresso da História, onde a promessa de uma humanidade «feliz», onde a dignidade seja respeitada continua, não só por construir, mas como regrediu a níveis preocupantes. Ao poder esmagador dos estados autoritários do século XX, assiste-se pela fragmentação dos poderes tradicionais à mesma limitada oportunidade que o indivíduo tem em garantir a sua voz de individualidade.

As transformações tecnológicas têm contribuído para isolar o indivíduo, pelo controle quase de ubiquidade que as máquinas permitem e pelo tempo desperdiçado na sua aprendizagem que nunca poderá ser de igual riqueza ao que se dispende a alimentar o conhecimento dos outros. Sendo o tempo uma realidade tão preciosa, a evolução económico-social tem garantido a liberdade humana, nas instituições que devem garantir a Democracia?

Tocqueville há dois séculos lembrou que para as sociedades democráticas, as que respeitam a identidade humana, o mais perigoso é que «no meio das pequenas ocupações incessantes da vida privada, a ambição perca o seu ímpeto e a sua grandeza (2)". Estamos pois de regresso às palavras de Orwell e essa é a sua grande "vitória", do tempo que o compreendeu muito limitadamente. Orwell, como Camus compreenderam mais que o século XX, compreenderem as motivações e as formas que organizam as formas políticas na ambição de dominar os cidadãos numa sociedade de ilusão e de privilégios de uma minoria. Na "Quinta dos Animais", há novos "líderes", para a confirmação da velha ideia tão do agrado de um certo poder político, "todos somos iguais, mas uns mais iguais que outros".

(1) George OrwellSelected Writings, Penguin
(2) Alexis de TocquevilleDa Democracia na América
Imagens, in http://www.famousauthors.org/george-orwell

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Memória de Audrey


"Remember, if you ever need a helping hand, it's at the end of your arm, as you get older, remember you have another hand: The first is to help yourself, the second is to help others".
 
Vinte e um anos sem a graça e a beleza de uma mulher e de uma actriz que faz parte da memória do cinema e das tardes encantadas quando o cinema era uma celebração e uma iniciação a mundos novos. Lembramo-la pelo seu  sorriso doce, de um tempo em que o cinema era ainda uma entrada artesanal no sonho e na aventura de descobrir. Evocação de fitas que acompanharam várias gerações. 

De Roman Holiday a Breakfast at Tiffany's, Guerra e Paz, até My Fair Lady, mas também a generosidade por causas nobres. Audrey Hepburn, quando o tempo ainda parecia domesticado pela doçura do sorriso. Um ícone, por onde a alegria e a a elegância se afirnaram como formas sublimes e sedutoras da beleza.)

Fica a sua lembrança, na memória dos dias. O seu site além de muito material fílmico agrupa uma das suas causas, justamente, a das crianças desfavorecidas. Pode ser consultado, aqui.



domingo, 19 de janeiro de 2014

Elis

Tantos séculos de saudades de uma voz e de um sorriso acima das palavras

A cidade de Garrett

O Porto é só uma certa maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito  que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar.

 O Porto é só esta atenção empenhada em escutar os passos dos velhos, que a certas atravessam a rua para passarem os dias no café em frente, os olhos vazios, as lárimas todas das crianças de S. Vítor correndo nos sulcos da sua melancolia. 

O Porto é só a pequena praça onde há tantos anos aprendo metodicamente a ser árvore, aproximando-me assim cada vez mais da restolhada matinal dos pardais, esses velhacos que, por muito que se afastem, regressam sempre à minha vida. Desentendido da cidade, olho na palma da mão os resíduos da juventude, e dessa paixão sem regra deixarei que uma pétala pouse aqui, por ser de cal.

Eugénio de Andrade, A Cidade de Garrett

A sabedoria do silêncio

Estive sempre sendo nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha coração
magoado (porque o0 amor, perdoa dizê-lo, 
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação). Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.

Eugénio de Andrade, Poesia, Modo de Ler    
Imagem, via  http://art-of-dreaming.tumblr.com/

O retrato de um amigo


« Cocteau dizia que há homens com com coração de diamante que apenas reagem ao fogo e a outros diamantes e negligenciam o resto. É junto destas raras vocações de sarça ardente que me sinto em família, o que equivale a explicar que quase sempre estou só. Mas não posso queixar-me: os acasos da vida ou o facto de navegar, por instinto, na direcção certa, fizeram que encontrasse, de longe em longe, Açores e Madeiras no vazio das ondas (...).

Eugénio de Andrade, vulcões de camaradagem exigente e limpa, ilhas fraternas de rigorosa ternura, abrigos de pedra suave onde encostar a inquietação da febre, pessoas que nos reconciliam com a noite mais escura da alma de que Scott escrevia, por dela nos trazerem vestígios da manhã. E é de Eugénio de Andrade que falo hoje, perpétua varanda de basalto em chamas de frente para o mar.

Chamam-lhe o amigo mais íntimo do sol: de acordo, se o sol for obstinado e severo. Chamam-lhe poeta: de acordo, se as palavras nos trazem notícia da veemência do sangue. Chamam-lhe difícil: de acordo, se notarem a bondade de menino na pomba do sorriso que de tempos a tempos acende os passos seus e os nossos e nos mostra a única vereda que caminha a direito, macieiras fora, na direcção do rio. Não conheço ninguém com gestos tão longos e com uma tão aguda inteligência de alma. Onde poisa a atenção do ouvido tudo se torna búzio. Onde descansa os dedos tudo se torna gato comedido e atento. Onde os olhos lhe nascem aprendemos com ele o intransigente júblio do mundo. E no entanto que geografia de dor no país do seu rosto, que discrição no sofrimento, que impediosa dignidade medida em cada sílaba. A total ausência de vaidade do seu orgulho foi o que, ao encontrá-lo pela primeira vez, mais profundamente me comoveu.

José Cardoso Pires, que não tinha admiração fácil, contou-me do poema que Eugénio compôs na morte de José Dias Coelho, quando os heróis retrospectivos se calavam de medo nos anos de alcatrão sujo da ditadura. Não um panfleto, não um manifesto, não um grito: apenas a serena voz de um homem falando de outro homem, fitando-nos da sua altura terrena e, por consequência, desmedida. Um dos seus livros intitula-se Rente ao Dizer e esse rente ao dizer, despido do que não é corpo, devolve-nos a nós mesmos na condição de bichos sublimes em que nas páginas que acede a publicar nos tornamos.

Ainda que em guerra Eugénio reconcilia-nos connosco ao deixar entrever os degraus que nos falta subir para estarmos lá em baixo, no lugar que é o nosso, manchados da comovida urina e dos líquidos obscuros que nos protegem ao nascer e nos esperam, na sombra da morte, a fim de nos ajudarem a partir, pobres criaturas mudas vestidas de ranho e de poeira celeste. Para além da amizade que nele é dura e nobre, isto lhe devo também: o retrato da minha condição e a certeza de que algo para além de mim continuará nos seus versos, seja pássaro, nuvem ou laranja madura.

Escrevi um dia que quando o coração se fecha faz mais barulho que uma porta. Não imagina como lhe agradeço, Eugénio, que o seu se mantenha calado num vigilante desvelo, convidando-me a entrar onde uma máscara de bronze nos aguarda para ficar connosco, naquela sala aberta rumo às palmeiras da voz. » (1)

António Lobo Antunes, sobre Eugénio, num retrato de um amigo, no dia em que lembramos o nascimento de um poeta que de forma imensamente bela nos deu a musicalidade e os limites do coração perante o tempo.

(1) António Lobo Antunes, «Bom Dia Eugénio»,
in Segundo Livro de Crónicas, Págs. 301-302, D. Quixote